terça-feira, 23 de dezembro de 2008

MARGINAL




Marginal é a fronteira. Um marginal está na fronteira. Num certo limite. Depois do qual se entra numa dimensão estranha. A marginal também é uma fronteira. É um limite. Separa dois mundos. De um lado a terra firme e do outro a água, a fecundarem-se. Pois bem, a marginal da cidade de Maputo também é isso. E o marginal da marginal da cidade de Maputo faz a regra.

Bem em frente ao Ministério dos Negócios Estrangeiros, olhando a baía de Maputo, do outro lado a Catembe, alguém vive colando textos e desenhos. As mensagens ali expostas também são marginais. Li algumas. Vi alguns desenhos. Parecem desabafos. Ou recados desabafados. Para alguém, claro.Alguém tem mais informação sobre o facto? Conhece o autor? Vamos partilhar.

NATAL E PERIFERIA


Andei a espantar-me de rua em rua com o natal nos bairros periféricos da cidade de Maputo. Na última semana, moradores ( jovens, fundamentalmente) iniciaram a ornamentação das ruas e exteriores das residências. Material precário, reaproveitado ( os balõenzinhos de José Craveirinha). Tudo na fasquia do desenrasca. veja isso mesmo nas fotos . Numa , com um pouco de esforço vêem-se as bandeirinhas. Mas o o mais importante é compreendermos a "física". As condições e meio envolvente. Já noutra, nota-se melhor a ornamentação pública. Feita pelo público, em nome do poder que devia servir o público.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

ORGANIZAÇÃO E ESTRUTURA DE UMA RÁDIO PÚBLICA (3)

Identificação do auditório e selecção de língua
O auditório pode ser definido como o conjunto de indivíduos que partilham o social mas individualizados nas suas experiências, condição social, etc e localizados num determinado/conhecido meio geográfico e social e que acede em condições específicas a uma determinada programação (de rádio) e que de alguma forma condiciona essa mesma programação.
Por certo são conhecidas muitas outras definições de auditório. No entanto, preferimos esta por razões operacionais embora teorias muito em voga refiram-se à uma maior segmentação do auditório ( nichos) como causa-efeito de uma maior especialização do meio ( BELLANGER, 1992:125). Por isso, importa recordar que estamos a projectar uma rádio de serviço público de recorte eminentemente generalista. E uma rádio de serviço público generalista tanto pode ser nacional, regional ou local. Para o caso, vamos trabalhar num cenário nacional. Ou seja, embora fosse possível referenciar o auditório recorrendo a características específicas (sexo, idade, profissão, grau de instrução, local de residência, etc) que nos levasse ao mesmo resultado, vamos avançar em função de características macro-estruturantes, nomeadamente: espaço geográfico ( Moçambique) e língua transversal ( oficial-português). Esta formulação é mais prática quando se pretende trabalhar com um auditório em que as suas especificidades diferenciadoras não são perseguidas, mas concentra-mo-nos nas que a transversalizam : sua localização geográfica e a língua a usar na programação.
Serviço Público: que público?
É importante reter que não é o raio de cobertura do emissor ou a língua usada na programação ou ainda a identificação do auditório como sendo o "povo" moçambicano que transformarão esse canal de rádio num canal de serviço público. Usando o mesmo raciocínio, para países com características geográficas, sociais, culturais e linguísticas como Moçambique, deverá ser equacionado sempre se o serviço público será plenamente funcionalizado se o grau de exclusão for pronunciado. Ou seja é preciso articular convenientemente o facto de Moçambique ser um país extenso, com muitos acidentes geográficos. Por outro lado, não existe uma língua que seja simultaneamente maioritária em todas as províncias do País ( INE, 2003 e relatório do II seminário da padronização da ortografia de línguas moçambicanas, 2000). Daqui a questão de fundo ( definido o auditório: um canal, transmitindo numa língua) cumprirá devidamente o seu papel de um serviço público inclusivo ?
Respondemos não. Filosoficamente, teríamos um canal ( supra-canal conceptual) que na concretização materializar-se-á em diversos canais , de forma a cobrir as diferentes características fundamentais das comunidades que compõem o auditório. Assim, é difícil contornar a necessidade de existência de um canal de âmbito nacional em Língua portuguesa e outros canais regionais a transmitir nas correspondentes línguas locais mais expressivas. Como forma de cobrir a maioria do auditório seleccionado. Aqui, deve-se sublinhar o facto de as programações de todos os canais assim "paridos" responderem ao mesmo apelo de objectivos e caminharem de forma complementar na construção e gestão das suas programações, recursos, etc.
Não percamos de vista que no nosso exercício estamos a trabalhar com o canal nacional, em língua portuguesa, orientado para um auditório nacional e que seja a espinha dorsal nas estratégias e práticas de gestão da programação do "supra-canal" de serviço público. ( continua)

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

CASA VELHA




Não estou alheio às belíssimas mensagens/comentários dos meus amigos Ouri Pota (http://www.maosdemocambique.blogspot.com/) e sj sobre a casa velha. Estou costurando algumas coisas. já contactei outras pessoas que são verdadeiras bibliotecas e arquivos ( quando o assunto é Casa Velha). Entretanto, não resisto a partilhar mais uma foto. Uma nota final, salvo engano meu, a casa velha celebra mais um aniversário no dia 10 de Dezembro. Gostaria de partilhar memórias e comentários sobre o papel da casa velha na construção da cidadania ( foi assim que a amiga sj escreveu num comentário que pode ser lido neste blog). Ou sobre qualquer outra coisa. As portas estão escancaradas.

TV CHATISTAS

Ataco o CHAT procurando o óbvio. O que salta à vista. O que muito rapidamente mobiliza a atenção. E o chat revela-se então um universo. Um caleidoscópio. Algo verdadeiramente fabuloso nas suas costuras mais finas e nos debruados vistosos. Sem muito rigor, bastando para tal olhar para a tela, inicio o diálogo com o mundo dos chatistas. Afinal quem são os chatistas? porque escrevem as suas mensagens publicamente? O que escrevem? Quem os lê? Quando escrevem? Como se vê, há muitos atalhos por onde caminhar. Prefiro o mais rafeiro. O mais óbvio, como já terei dito. Deixei-me apaixonar pelos nomes dos chatistas. Pela maneira como os chatistas assinam as suas mensagens. Num segundo momento, perguntei-me como os chatistas escolhem os seus nomes? O que lhes impele? O que escondem ou revelam? Assim, e para já, deixo a seguir uma série de nomes. Escolhi-os por acaso. Era apenas importante que não fossem nomes comuns ( António, Teodoro, Ana, Miguel, por exemplo). A primeira recolha fi-la no dia 9 de Setembro, das 13h00 às 14h00. A segunda, foi mais recente, no dia 6 de Dezembro, das 16h00 às 17h00, na televisão KTV.

Rainha do deserto
PO3T4 ( Poeta)
Tsotsi
Mulher gata
Beleza Pura
O notável
$El incrível$
Poetisa
Pérola negra
Atrevido
Escrava da Paixão
Mulher Melancia
cansado
Doce Pecado
Honey Girl
bad Boy bifles ( mutante bom é mutante morto)
Olhox Azuix
Sugar Girl
malandro
Super Lindon@
bué fantástico
caramelo
suspeito zero
diablo
madona
Deixe a sua opinião, o seu comentário.

domingo, 7 de dezembro de 2008

AVIÃO-RESTAURANTE


O Boing que se vê nas fotos vai-se constituído símbolo de Lichinga. Neste momento compõe a linda paisagem do paraíso, um belo lugar situado há uns poucos quilómetros do centro da cidade de Lichinga( capital de Niassa, norte do País). Conta-se que engenhosas mãos e criativas mentes transformaram o interior do avião numa diferente sala de refeições. Veja-se os detalhes. Por exemplo os suportes.O avião parece ter pousado ali, suavemente. Embora se diga que o avião foi ali parar por ter "aterrado" fora da pista. de facto, do sítio onde o avião está agora à pista dista muito pouco.
Portanto, estou intrigado com o avião ali "estacionado" . E peço a quem conheça a história de como o avião da LAM foi ali parar que a partilhe. À guisa de extra, há um outro avião, ainda em Lichinga, no centro da cidade, próximo do Banco de Moçambique. Também na Beira conheço 2 aviões exibidos no centro da cidade.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

ORGANIZAÇÃO E ESTRUTURA DE UMA RÁDIO PÚBLICA(2)

Prossigo o exercício de construir um canal de serviço público, discutindo um dos elementos de base: a caracterização do auditório. Como disse no primeiro artigo da série, o resultado que se pretende é apenas " uma hipótese" e os ingredientes usados na receita são reais.
O estudo das audiências ocupa um lugar privilegiado nas teorias da "comunicação social". A literatura da área indica-nos que a valorização da audiência surge como superação e desenvolvimento dentro da communications research ( Wolf, 1985: 26) protagonizados, por exemplo, por um Lasswell ( 1948) que já se concentra nos efeitos e nos conteúdos, deixando para trás a perspectiva hipodérmica. O desenvolvimento do interesse sobre os efeitos leva a uma investigação mais aprofundada sobre a audiência, ora tomando-a como um universo compacto, uniforme, inanimado, ora progredindo em análise mais "atomizada", centrando mais no indivíduo; ora elegendo como núcleo de atenção as " massas dinâmicas" dentro da chamada indústria cultural ( Adorno, 1951: 3). O grande debate que se levanta então é sobre a caracterização do auditório, sua dinâmica interna e relacionamento com os media.
Para compreendermos o relacionamento entre o auditório e o media, tal como Meditsch ( 1999: 85) assumimos que a mediação do público ( auditório) está presente não apenas na etapa posterior à emissão, mas também numa etapa anterior, como a intencionalidade que a orienta.
No contexto de Rádio de Serviço Público esta mediação do público exibe três estágios, os quais agem simultaneamente sobre o esforço de desenho da programação: a) O Público, como cidadão; b)Competências dos gestores e decisores;c) dinâmica da sociedade.
O Público como cidadão: Nesta qualidade, a Constituição da República, a Lei de Imprensa, o Governo do dia e os Estatutos/mandato do SPR, configurados pela atitude do cidadão-povo, já definem com algum rigor, através da prescrição de perfil, objectivos " política linguística", o fram-work da programação. Competirá posteriormente aos gestores do serviço publico definirem uma estratégia que será aplicada pelos decisores e gestores do canal.
Competências dos gestores do canal: muitas vezes os gestores do canal baseiam as decisões na experiência ( saber fazer). O conhecimento daí obtido poucas vezes é pigmentado ou estruturado com base em análise de estudos de audiências ou outros conhecimentos científicos. A competência técnica individual substitui objectivos institucionais e o feed-back do auditório.
Dinâmica social:Os acontecimentos protagonizadas ou que envolvem as audiências interferem na consumação de uma programação. Este elemento é, portanto, circunstancial, mas condiciona continuamente as decisões dos gestores do canal. ( continua)

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

EMISSÕES REGIONAIS E BOLSAS LINGUÍSTICAS(4)

No último artigo analisamos a qualidade do sinal do Emissor Provincial da Rádio Moçambique- Nampula entre esta cidade e Pemba( capital da Província de Cabo Delgado). Na mesma ocasião, fizemos o contraste com o sinal de outros emissores provinciais que são nos mesmos locais sintonizados. Isto, como sabemos, na esteira de percebermos como deve a Rádio Moçambique lidar com o facto de uma determinada comunidade não conseguir sintonizar o " seu emissor provincial" ou a língua de tal comunidade não estar a ser usada no emissor provincial respectivo. Antes de lançar algumas hipóteses que conduzam a nossa discussão, vamos fazer uma breve visita à distribuição das línguas Moçambicanas pelos Emissores Provinciais, apalpando igualmente os contextos de estabelecimento de tal prática ou "política".
Como consequência de um interessante debate interno realizado por quadros da Rádio Moçambique, uma consultoria técnica, contratada pela Rádio Moçambique ( realizada pelos linguistas Bento Sitói, Julieta langa e Aurélio Zacarias Simango), em 1995, apresentou várias recomendações das quais vamos destacar as que se relacionam com a distribuição das línguas, o que assim se pode apresentar, menos o português:
atenção, siga a seguinte "Legenda"
Línguas usadas antes de 1997( em vermelho)
línguas usadas depois de 1997( em azul)

Niassa: CiYao; CNyanja;Emakhuwa C.Delgado: Shimakonde;Kiswahil;Emakhuwa;Kimwani ; Zambézia: Echuabo;Elomwe ; Nampula: Emakhuwa Tete: CiNyanja;CiNyungwe ; Sofala: CiSena; CiNdau; Manica: CiUtee; CiManyika;Cibarwe; Inhambane: XiTswa; CiCopi;GiTonga; Gaza:XiChangana; CiCopi; Maputo( desdobrou o XiTsonga em XiRonga e XiChangana)

Neste momento, em 2008, este quadro mantem-se válido. Nota importante é o facto de o emissor de Gaza ter iniciado emissões próprias apenas em 2002 (usando as línguas recomendadas pela consultoria já citada). Noutros termos, a Rádio Moçambique seguiu à risca as recomendações estabelecidas à excepção do seguinte: não introduziu a língua Sena ( Zambézia e Manica) e o Emakhuwa na Zambézia. Pois, ainda que de forma não firme, a língua sena já é utilizada no Emissor Provincial de Tete. E, fora de todas as conjecturas, o Emissor Provincial de Inhambane transmite um serviço mínimo em Ndau ( tal e qual o sena em Tete). A pergunta que fica no ar é: a Rádio Moçambique vai ou não introduzir as línguas recomendadas ( incluindo a utilização mais esclarecida do sena em Tete)? Caso não o faça, que razões estarão a condicionar tal (falta de) decisão ? ( continua)

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

TV- CHAT


Nos últimos anos o chat tem conquistado continuamente mais e mais adeptos à medida que o computador e a internet vão consolidando o seu reinado nos hábitos das pessoas. Aliás, muitos especialistas vão mesmo demonstrando que o chat é o factor mais viciante no computador. E nisso não há idade nem classe social que escape. para estarmos a conversar sobre as mesmas coisas, fui ao site da Porto Editora e trouxe esta bela e exacta definição de Chat: nome masculino; forma de comunicação à distância em tempo real, por meio de computadores ligados à Internet. (Do ing. chat, «id.»)
No nosso país, onde o computador e a Internet ainda são para uma minoria urbana ou urbanizada, e aproveitando o boom que a televisão está a registar, os engenheiros do negócio estabeleceram um paralelismo entre estes dois media ( televisão e computador) e tiraram o chat do computador para a tela da televisão. Foi assim que de uma assentada a TVM, A TVMiramar, a STV e a KTV inauguraram o negócio do chat. Hoje, pouco mais de 24 meses da febre do TV-Chat, apenas a KTV e a TVM mantém o negócio. Não tenho conseguido ver os chats da STV, da TVMiramar e da TIM.

RASTAFARI ( fim)

Alguns leitores do blog tem-me perguntado quando retomo ou concluo a série de artigos sobre os rasta. Em boa verdade, o terceiro artigo é o último. Deveria ter indicado isso claramente aquando da postagem do artigo número três. Já agora, vou também contextualizar a produção dos artigos e justificar a postagem.
A peça sobre os Rastafari escrevi-a em 1994 após regressar de uma viagem a Harare ( capital do Zimbabwe). E publiquei-a num jornal da praça do qual era colaborador. Assim, do meu maltratado arquivo, resgatei uma parte substancial do artigo. Voltando à viagem, nela pude conviver mais profundamente com uma comunidade rasta. Tinha sido a primeira vez que o fazia.
A foto que ilustra este texto é do meu colega e amigo Eduardo Tocoloa. Locutor da Rádio Moçambique, Lichinga ( capital da província de Niassa). Mostrei-lhe os artigos. leu e gostou. Ele esclareceu-me que era rasta. E que apenas seguia o básico. Nomeadamente, a aparência e, o mais importante, segundo ele, o pacifismo: nada de violência e desonestidade.
Gostei.


sexta-feira, 28 de novembro de 2008

ORGANIZAÇÃO E ESTRUTURA DE UMA RÁDIO PÚBLICA

Pretendo iniciar uma digressão arrojada e longa pelo universo da teorização sobre o SPR ( serviço Público de Radiodifusão) . Para começar, um aperitivo, brindo-vos com umas largas e apressadas pinceladas sobre o assunto. Trata-se de um texto no qual construo os fundamentos para uma hipotética rádio pública. A simulação tem como cenário Moçambique. Os dados utilizadas são, contudo, reais.
Mais especificamente, vamos tratar da rádio pública, procurando apresentar uma proposta de modelo de organização e estruturação. Importa, num primeiro momento, estabilizar dois conceitos que, a nosso ver, tem sido tratados de forma "flexível": serviço público de radiodifusão (SPR) e Rádio Pública. Aqui , e muito rapidamente, importa estabelecer que SPR é uma construção hiperonímica que pode desencadear e cobre uma determinada realidade, por exemplo, e no nosso caso, Rádio Pública. Assim, utilizaremos Rádio Pública no sentido de canal.
A partir daqui fica claro que quando se fala, por exemplo, de sustentabilidade financeira de uma Rádio Pública ou Canal de Rádio de Serviço Público detido por um SPR, não se está a imputar o ónus disso ao canal , uma vez que o canal em causa apenas concretiza um serviço muito específico de radiodifusão: uma emissão de " serviço público". Noutros termos, o serviço público que é constituído através de uma empresa ( pública) é que deve providenciar a sua sustentabilidade financeira. Olhando para a nossa realidade, significa que o canal de serviço público por excelência em Moçambique ( Antena Nacional e Emissores Provinciais da Rádio Moçambique- Empresa Pública) não tem como missão primária e exclusiva auto-financiar-se. A Empresa "Rádio Moçambique-EP" é que tem tal função. Finda esta pequena digressão por algo aparentemente marginal voltemos à construção da nossa hipotética rádio pública, analisando as questões relativas à audiência. A quem se destina a Rádio? Quem a ouve?
I. o auditório
Vamos considerar três aspectos: a) peso do auditório na programação; b) identificação do auditório; c) línguas de comunicação. Destes três aspectos, o comandante é a identificação do auditório. Este aspecto corresponde à uma formulação teórica, geral, enquadrada nos estudos sobre a audiência e na sua relação com os conteúdos. Por outro lado, a identificação do auditório está relacionada com os decisores num determinado meio sócio-geográfico e histórico. Ou seja, antes de analisar o peso do auditório ( alínea a) numa programação, exige o rigor metodológico que discutamos previamente, pelo menos, quem é esse auditório.(continua)
Nota:
A bibliografia será apresentada no fim.

PONTE SAMORA MACHEL
















A ponte Samora Machel tem tudo para ser famosa. Pelos melhores motivos. Deve o seu nome a uma personalidade muito querida a muita boa gente; atravessa um dos maiores e dos mais famosos rios de África. Une as duas partes da cidade de Tete, a mais quente das cidades moçambicanas. Ultimamente, porém, a ponte tem sido notícia pelos piores motivos: há registos frequentes de suportes da ponte que rebentam. E enquanto não se tomam medidas mais sérias, paliativos vão sendo aplicados. De entre os quais, a colocação de suportes alternativos. Veja-se a sequência de fotos que se seguem.Frescas da semana passada.

0,5 DIAS DO MÊS SÃO 15 DIAS?


Perguntei a duas pessoas como interpretavam o vírgula 5 do 5 Meses da placa de informação na foto. A resposta veio rápida e segura: o ,5 significa metade do mês. Ou seja, deve-se ler assim: Prazo de execução: 5 meses e meio ( significando o meio 15 dias e não meio dia). ambas pessoas riram-se meio intrigadas com o facto.

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

RÁDIO MUTHIYANA DE NOVO NO AR (93.5 FM)


Como reportei há três semanas, a Rádio Muthiyana ( bairro Ferroviário, cidade de Maputo) foi assaltada. Por haver ficado sem equipamento de estúdios, a rádio deixou de estar no ar. Por pouco tempo, porém, uma vez que foi possível obter um equipamento alternativo. Bastante modesto. Mas o suficiente para voltar a ter as emissões no ar.

Visitei o os estúdios da Rádio assaltada e vi o equipamento alternativo. Trata-se de equipamento básico ( leitor, misturador) montado numa mala. Pelo que apurei, trata-se de equipamento da rádio Feba.

Por razões de segurança, e para evitar novo roubo, o dito equipamento é levado à Rádio Muthiyana logo pela manhã. A emissão abre às seis horas da manhã e fecha ao princípio da noite. Nessa altura é novamente desmontado e guardado em sítio seguro(x).

tronco de baobá-IMBONDEIRO (Malambe) em Matema TETE




domingo, 23 de novembro de 2008

EMISSÕES REGIONAIS E BOLSAS LINGUÍSTICAS(3)


QUE TRATAMENTO DEVE A RÁDIO MOÇAMBIQUE (RM-EP) CONFERIR À SITUAÇÃO EM QUE UMA DETERMINADA COMUNIDADE/REGIÃO DE UMA PROVÍNCIA NÃO CONSEGUE SINTONIZAR O "SEU" EMISSOR PROVINCIAL?

ANÁLISE DE CASO
# Qualidade do sinal do emissor provincial de Nampula em Namapa#

Dados geográficos. Namapa é um distrito da província de Nampula e localiza-se no percurso entre Nampula e Pemba. Dista cerca de 220 km de Nampula, quase a meio caminho entre Nampula e Pemba.
Para aferirmos a qualidade da recepção do sinal dos Emissores Provinciais de Nampula ( e Cabo Delgado, contrastivamente), empreedemos uma viagem terrestre entre as cidades de Nampula e Pemba ( capital da província de Cabo Delgado, norte de Moçambique), tendo pernoitado em Erati ( sede de Namapa) e Chiúre.Influenciaram a nossa decisão o facto de termos acesso a um volume regular de informações sobre a qualidade de recepção das emissões da Rádio Moçambique naquele local bem como facilidade logísticas de deslocação e acomodação. Também tivemos em conta o continuum linguístico da zona ( o sul de cabo Delgado e a totalidade de Nampula são comunidades nativamente falantes do que genericamente designaríamos Emakhuwa).
Em Namapa, ouvintes contactados ( entrevistas individuais e grupos) afirmaram reconhecer e escutar as emissões do Emissor Provincial de Nampula em Onda Média. informaram que as condições de recepção são relativamente melhores nos períodos nocturnos e princípios da manhã e da noite. Durante o dia solar afirmaram ser " quase impossível" sintonizar a emissão. Na tentativa de o fazer, amarravam um cabo eléctrico ou arame à antena do receptor de rádio ou deslocavam o aparelho de rádio continuamente procurando um ponto onde melhor se escutasse. solicitados a avaliar a qualidade de recepção do sinal entre excelente/boa/razoável/má, indicaram esta última.
#Qualidade de recepção do sinal do Emissor Provincial de Nampula ao longo da via Nampula-Pemba#

Namialo ( 80 km de nampula): razoável
Namapa ( 220 km de Nampula): má
Chiúre ( 340 km de Nampula): razoável
Pemba( 438 Km de Nampula): razoável
Por seu turno, o sinal do Emissor Provincial de Cabo Delgado apresentava boa qualidade de recepção nos mesmos pontos. Com a mesma qualidade escutavam-se os emissores de Manica, Tete e Sofala.Aliás, ao longo desse "corredor" estes três emissores eram escutados com relativa nitidez em Namialo ( 80 km de Nampula) e Chiúre (cerca de 240 km de Nampula).
Contactados os técnicos da Rádio Moçambique, muitas foram as razões apontadas para explicar o cenário. Avultam o estado técnico do emissor em estudo ou a sua localização .
Diante deste quadro, o investigador enfrenta a seguinte questão: como fazer chegar o sinal do Emissor provincial de Nampula a Namapa caso não haja como induzir esse resultado do ponto de vista da qualidade ou potência do emissor de 50 kw em onda média?

Nota

Nas jornadas de Linguística de 2001 ( actualmente designadas por Jornadas de Radiodifusao), evento académico-científico que é organizado pela Rádio Moçambique por ocasião do seu aniversario ( 2 de Outubro), apresentei o resultado de um estudo que fiz no ano 2000. O estudo em causa visava compreender os contornos de uma ideia e uma experiência relacionadas com a realização e transmissão simultâneas de um programa de rádio, em línguas moçambicanas, por equipas em províncias diferentes.


CONTINUA

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

CASA VELHA-NIASSA


CASA VELHA-MAPUTO


Deixo aqui duas fotos que muito me tocam. São imagens das sedes da Casa Velha de Maputo e do Niassa. As fotos foram feitas nas duas últimas semanas.

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

NA TERRA DO REI


Para quem atravessa a cidade de Xai-Xai ( capital da Província de Gaza, sul de Moçambique), do lado esquerdo no sentido norte-sul, não deixa de ser curiosa esta imagem. Ouvi dizer que a figura faz parte da "imagem" do talho que funcionará ali.

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

RASTAFARI (3)



Evolução
O Rastafarianismo nasceu nos anos 30, na Jamaica, na esteira de reivindicações negritudistas nos Estados unidos e mais tarde na Jamaica. No início, foram principalmente pessoas da classe social muito pobre que adoptaram o rastafarianismo. Entre os mais destacados pioneiros avultam os nomes de Marcus Garvey e Leonard Howell. Aliás, alguma literatura refere mesmo que terá sido Marcus Garvey quem terá pré-anunciado a coração de Haillé Selassié, com as seguintes palavras: “: "Olhem para Leste, para Àfrica, onde um negro será coroado Rei." E assim foi, a 2 de Novembro de 1930, Ras Tafari Makonnen, foi coroado Rei, alegando descendência do Rei Salomão de Jerusálem e da Rainha Makeda de heba. Adoptou o nome de Haile Selassie I ("o poder da divina trindade") e foi designado 225º Imperador da dinastia Salomonica, Eleito de Deus, Rei dos Reis, Senhores dos Senhores, Leão Conquistador da Tribo de Juda. É assim que para muitos seguidores do movimento Rasta, Margus Garvey é tido como profeta.
O Movimento Rasta foi fortificando-se significativamente ganhando ao mesmo tempo alguma estabilidade. Com a visita de Haille Selassie a Jamaica em 1966 o movimento ganhou um impulso notável. Porém, nos meados dos anos 70, registou-se uma acentuada regressão, muito por culpa da morte de Selassie em 1975. Pensava-se, então, que seria o fim dos Rasta. No entanto, poucos meses depois, estourava nas paradas jamaicanas a canção de Bob Marley que “jah live” ( Desus está vivo) contragolpeando com estes versos:"Os imbecis dizem no seu coração / Rasta, o teu Deus está morto / Mas nós sabemos / Os dreads serão dreads hoje e sempre / Jah está vivo". A profecia de Bob Marley estava certa. Rapidamente, a música e o artista ganharam forte projecção e com eles ganhou o movimento. Foi a sua popularização, a sua consagração junto, principalmente, às massas humildes. Cedo passou-se a considerar o reggae a música dos oprimidos.
A rasta
Uma das principais características dos RastaFarianos são os cabelos trançados em anéis, os entrelaçados e a barba farta. Tal prática, como muitos pensam, não é originariamente jamaicana. Ela foi aproveitada de fotografias de alguns povos da África Oriental que usavam cabelo entrelaçado. Este hábito generalizou-se entre as comunidades Rasta na Jamaica por volta dos anos 30, passando em pouco tempo a ser uma das marcas mais identificativas dos membros do movimento. O cabelo, quando entrelaçado, recebe na gíria rasta várias designações: Janks, Nats, Lock, Dread, Bongo, entre outras.
No finzinho desta parte, vale a pena recordar algumas regras rasta. Estas regras tem raiz no pensamento de Marcus Garvey, Leonard Howell e Haillé Selassiè.
I. Segundo consta, Garvey, durante uma missa, terá dito
Temos fortes objecções em relação a alterações agudas da figura do ser humano, corte e escovamento [do cabelo], tatuagem da pele, cortes da carne.

2.Somos basicamente vegetarianos, dando uso escasso a certas peles animais, ainda assim proibindo o uso de carnes suínas de qualquer forma, peixes de concha, peixes sem escamas, caracóis, etc.

3.Adoramos e aceitamos mais nenhum Deus além de Rastafari, proibindo todas as outras formas de adoração pagã, apesar de as respeitarmos.

4.Amamos e respeitamos a irmandade da humanidade.

5.Desaprovamos e abolimos completamente o ódio, ciúmes, inveja, engano, fraude e traição, etc...

6.Não aprovamos os prazeres da sociedade moderna e os seus males correntes.

7.Temos a obrigação de criar uma nova ordem mundial de uma irmandade.

8.O nosso dever é expandir a mão da caridade a qualquer irmão/irmã que esteja em dificuldade, primeiramente aos que sejam Rastafarianos e só depois a qualquer humano, animal, planta, etc...

9.Somos aderentes das antigas leis da Etiópia.

Rádio muthiyana ( cidade de Maputo) sem voz


A Rádio Muthiyana foi assaltada esta madrugada. Os assaltantes roubaram (equipamento de) dois estúdios. Assim, hoje a rádio não está no ar. E não estará até que haja estúdios. A Polícia foi comunicada. Na foto de Baixo, locutores e jornalistas da rádio muthiyana. Vê-se também uma agente da polícia. Na foto deste texto, deixo ver uma panorâmica do exterior da rádio. no centro está Olímpia Matimula, chefe da Redacção. A rádio Muthyiana localiza-se no Bairro ferroviário e iniciou as suas transmissões em 2001. Pertence a associação das mulheres jornalistas.

Rádio muthiyana calada ( cidade de Maputo)


domingo, 2 de novembro de 2008

EMISSÕES REGIONAIS E BOLSAS LINGUÍSTICAS (2)

QUE TRATAMENTO DEVE A RÁDIO MOÇAMBIQUE (RM-EP) CONFERIR À SITUAÇÃO EM QUE UMA DETERMINADA COMUNIDADE/REGIÃO DE UMA PROVÍNCIA NÃO CONSEGUE SINTONIZAR O "SEU" EMISSOR PROVINCIAL?

Para melhor respondermos à esta questão deveremos primeiro caracterizar o sistema de radiodifusão envolvendo as emissoras provinciais. em momento próprio faremos o estudo de um caso específico.
1. As emissões provinciais em Onda Média
A partir de 1996 a RM-EP iniciou a substituição de emissores velhos de Onda Média. Neste processo foram abrangidos os emissores de Onda Média em todas as províncias onde já existiam emissões locais.Zambézia foi a primeira província, em 1996, tendo culminado com Niassa, a 7 de Julho de 2001.
O Processo abrangeu a montagem de novos emissores de 50 KW nos emissores provinciais que já possuíam emissões próprias.Ficou de parte a província de Gaza que até então beneficiava-se das emissões transmitidas através do Emissor Interprovincial de Maputo e Gaza( EIMG). Gaza passaria na esteira deste processo a dispor de uma emissão própria também com um emissor de 50 KW. O que significa que neste momento cada uma das 10 províncias de Moçambique dispõe de uma emissão local transmitida através de um emissor de 50 KW.
2.constrangimentos à cobertura
a)natureza do sinal
Documentação diversa indica-nos que o total acumulado da potência dos emissores em Onda Média bem como a da rede em FM para retransmissão do sinal da Antena Nacional ( serviço nacional 24 horas em língua portuguesa), alguns canais especializados ( Rádio Cidade, Canal de desporto, serviço em língua inglesa e algumas emissões provinciais) é suficiente para cobrir a totalidade do território nacional e parte dos países vizinhos, no período nocturno, e muito próximo disso durante o dia solar. Esta variação está relacionada com a natureza da expansão do sinal do sinal em Onda Média que é afectada pela irradiação solar. Por conseguinte, na ausência deste factor, a transmissão do sinal é muito mais efectiva.
b) Limites geográficos
uma olhadela ao mapa do nosso País recorda-nos as irregularidades do seu espaço, lembrando um fulano com a cabeça pequenita e a parte da cintura para baixo grande. Isto se virarmos o mapa para baixo. Para vermos como esta questão interfere na cobertura, fiquemos com o seguinte exemplo: se tivermos dois emissores de igual potência colocados nos dois extremos do país ( num ponto onde o país é estreito e outro onde é mais largo), veremos claramente que a maior parte do sinal do emissor colocado na parte estreita do país "perde-se" para os países vizinhos, enquanto o sinal do outro emissor colocado na parte avantajada do país há-de ser manifestamente insuficiente para cobrir a região em seu redor dentro do território desejado.
c) Localização do emissor versus mapa etno-linguístico
Esta é a situação mais preocupante. Como se sabe (1) as fronteiras políticas no nosso continente não atendem as características etno-culturais-linguísticos dos nossos povos. (2) por outras razões, incluindo as de herança, a divisão administrativa do país tem a mesma característica. Quer dizer, uma determinada comunidade etno-linguística não está confinada numa só província. Ela existe em diversas províncias, representando, em qualquer uma delas um valor e uma expressão própria. Assim, há emissores que estão localizados num dos extremos da Província, não sendo devidamente escutados num outro extremo e perdendo-se o seu sinal para outras províncias, que se calhar não falam as línguas transmitidas ou já são suficientemente cobertas pelo seu próprio emissor provincial. Por exemplo: O emissor de Inhambane, instalado no sul da Província é mal sintonizado no norte do seu território que, entretanto, tem mais facilidade de captar o emissor de Sofala ou Manica.
Também verificam-se situações em que determinada língua não é utilizada num determinado emissor provincial quando na província há uma comunidade etno-linguística da língua em questão. Ou vice-versa. os emissores provinciais de Tete e Zambézia não transmitem a língua sena, embora se registem comunidades expressivas desta língua nos seus territórios.
d) disposição topográfica e estado do tempo
É sobejamente sabido que a disposição topográfica e o estado do tempo influem na propagação do sinal de rádio. As montanhas, a nebulosidade, as descargas electromagnéticas, por exemplo.
Resumindo
A instalação de novos emissores de 50 KW nos emissores provinciais da RM-EP significou a disponibilização do sinal, porém, a cobertura/satisfação não é proporcional pois é condicionada por múltiplos factores, tais como os que acabamos de visitar, resultando em, portanto, comunidades com:
  • sinal, mas sem a língua apropriada;
  • sinal e línguas desejados e apropriados;
  • sinal não desejado/apropriado
  • etc

( continua)

RASTAFARI (2)


O surgimento dos RASTA está ligado aos movimentos africanistas que se deram na América nos princípios do século passado. No período colonial, os descendentes dos escravos africanos nas américas propunham-se organizar um regresso de todos os negros à África. Todavia, o poder colonial dificultou este movimento. Gradualmente, alguns grupos de activistas assumiram que aquele é que era a grande causa da sua luta, pois, fora de África, nenhum negro estaria realmente livre. Na impossibilidade de um regresso físico imediato, camadas pobres de negros, da zona oeste da capital jamaicana começaram a promover a ideia de regresso espiritual. Isto por volta dos anos 30. Faziam-se então tentativas de recriação da vida cultural e religiosa herdadas de África. Na religião, por exemplo, espalhou-se o pensamento segundo o qual os negros eram os verdadeiros e originais israelitas, sendo a África a terra prometida. Mas, uma vez que até aquela altura apenas a Etiópia estava independente em África, os grupos africanistas, na Jamaica, viam na Etiópia e no seu Chefe de Estado as imagens da Palestina e de Moisés . Hailé Selassié ( na imagem), o imperador etiópe, ou RAS TAFARI, era tido como "um enviado de Deus" com a missão de conduzir todos os negros e volta à sua Terra prometida : a África. Aliás, alguns autores consideram mesmo, hoje, que o surgimento do movimento RASTAFARI pode ser oficialmente marcado em função da coroação de Hailé Selassie, ocorrida em 1930.
O primeiro rasta
O primeiro Rasta de que os registos escritos nos falam é LEONARD HOWELL. Leonard HOwel, um pregador da corte Jamaicana, preparou em 1933 alguns princípios pelos quais se devia guiar o movimento RASTAFARI. O pensamento de Howelln assentava na ideia segundo a qual se devia preparar com urgência o regresso dos negros à Africa e o reconhecimento de Hailé Selassié como chefe supremo do povo africano. Em 1948, Sam Brown, um activista RASTA, modificou e ampliou os mandamento propostos por Leonard Howell. Entre outros, Brown afirmava que:

  • os rasta são basicamente vegetarianos;
  • dentro do movimento, os membros deviam adorar não a Deus, mas a Ras Tafari, o rei Hailé Selassié.

Mais tarde, outros Rasta acrescentaram outros mandamentos, de entre os quais se destacam:

  • a abstenção do alcoól;
  • a utilização de temperos e outras especarias em vez do sal;
  • proibição do aborto e da utilização de anticonceptivo;
  • abstenção sexual durante a menstruação.
( CONTINUA)

sábado, 25 de outubro de 2008

EMISSOES REGIONAIS E AS BOLSAS LINGUÍSTICAS

Nas jornadas de Linguística de 2001 ( actualmente designadas por Jornadas de Radiodifusao), evento académico-científico que é organizado pela Rádio Moçambique por ocasião do seu aniversario ( 2 de Outubro), apresentei o resultado de um estudo que fiz no ano 2000. O estudo em causa visava compreender os contornos de uma ideia e uma experiência relacionadas com a realização e transmissão simultâneas de um programa de rádio, em línguas moçambicanas, por equipas em províncias diferentes.
Muito recentemente ( 2000/1) a Rádio Moçambique concluiu a montagem(renovação) de emissores de 50 KW em onda média naquelas províncias com emissões provinciais próprias. Do ponto de vista teórico, não há como recusar a ideia de que as emissões da Rádio Moçambique, no seu conjunto, cobrem todo o território nacional. Porém, se o todo está coberto, não e forçoso que todas as partes estejam devidamente e igualmente cobertas. E isto remete-nos para a natureza do todo:
a) todo quantitativo: disponibilidade geográfica do sinal áudio e como ele é recebido;
b)todo qualitativo: é o conteúdo ( programação e línguas transmitidas).
Pressupostos
  • a realidade etno-linguística e a divisão administrativa de Moçambique não são conscidentes;
  • a distribuição das línguas moçambicanas por cada um dos Emissores(delegações) Provinciais nem sempre conscide com a realidade etno-linguística de cada uma dessas mesmas províncias;
  • a estrutura administrativa da Rádio Moçambique está concebida em função da divisão administrativa estatal

Problemas

Que tratamento devem os decisores da Rádio Moçambique conferir à situações:

a) em que apesar de um determinado emissor provincial transmitir em certa língua, comunidades residentes nessa província e falantes de tal língua não conseguem sintonizar o sinal desse mesmo emissor provincial?

b)em que uma ou mais línguas moçambicanas, sendo faladas nativamente numa certa província, não são contudo utilizadas no respectivo emissor provincial?

Metodologia

Como já indicamos, as nossas atenções gravitarão em redor de duas questões. Qualquer uma delas está relacionada com a dificuldade de uma determinada comunidade etno-linguística geograficamente localizada ter acesso a uma emissão de um canal provincial a Rádio Moçambique.

Começaremos por caracterizar genericamente, com a profundidade conveniente, cada caso. Em seguida procuraremos confirmar as ocorrências isolando uma manifestação concreta de cada caso, dentro de um espaço geo-linguístico determinado. Aqui faremos uso de diferentes métodos, de entre os quais, entrevistas, observação directa, etc. O trabalho de campo para confirmar os dados foi realizado no troço compreendido entre a cidade de Nampula (província do mesmo nome- Norte de Moçambique) e a de Pemba (capital da província de Cabo Delgado, no extremo norte de Moçambique), nos distritos de Namialo, Namapa e Chiúre.

Importa referir que em algum momento procuraremos localizar/identificar as línguas que são faladas nativamente em cada província. Depois, de um tal universo, extrairemos aquelas que sao utilizadas nos respectivos emissores provinciais. As restantes línguas é que serão objecto de tratamento. Esta é uma premissa fundamental no esquadrinhamento do âmbito deste trabalho.

Hipóteses

Para os casos de comunidades sem acesso ao sinal do seu emissor provincial, mas com possibilidades de sintonizar outros emissores provinciais vizinhos que transmitam em línguas ali inteligíveis, o ideal seria estabelecer programas interprovinciais, transmitidos em simultâneo nos emissores envolvidos, de forma que tal comunidade possa ter acesso a alguns conteúdos transmitidos a partir do seu emissor provincial e na sua variante habitual, mas sintonizando com boa qualidade um outro emissor provincial próximo. Similarmente, uma língua não utilizada num determinado Emissor Provincial, pode integrar um programa interprovincial com transmissão num emissor provincial próximo e sintonizável na região da referida comunidade. (continua)

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

RASTAFARI


Num intervalo de 2 meses duas notícias sobre Bob Marley ocuparam as manchetes dos jornais. Num primeiro caso, na Jamaica, terra natal do cantor, uma comissão especializada decidiu não atribuir ao ídolo da musica jamaicana, Bob Marley, o titulo póstumo de herói nacional. Num pais europeu, que pouco nos habituou a paixões por este tipo de musica ( Croácia, salvo erro) uma comunidade decidiu erguer uma estátua ao finando. Qualquer um destes actos apenas revela a grandeza de Bob Marley. Quer se goste dele ou não. Quer se aprecie ou não a musica do estilo reggae que ele simboliza. E por via disso, o rastafarianismo, a filosofia de vida que e adoptada pelos seguidores de Bob Marley.
A propósito de tudo isso, fica aqui um texto que terei publicado nos meados dos anos 90 enquanto colaborador da pagina cultural do jornal Notícias, o " Xipalapala" ( uma abraço ao Marcelo Panguana, com quem trabalhei nesse projecto).
Quando nos recordamos hoje do Bob Marley, vem-nos à memória, imediatamente, a imagem de um cantor cheio de talento e de audácia. Um cantor muito popular, cultor do ritmo reggae.
Bob Marley singularizou-se pela desenvoltura com que cantava, pela forma envolvente e íntima como abordava temas e partia num grito de denúncia, sem rancor, para a condenação. De resto, hoje não se discute o vanguardismo de Bob Marley.
Estas, no entanto, não eram as únicas características que o identificavam . havia ainda a cabeleira espessa e trançada que até à sua morte sempre exibiu e, por outro lado, o polémico hábito de fumar marijuana, mesmo em lugares públicos. Por entre uma e outra, o finado justificava-se dizendo-se rasta
Mas afinal, quem são os rasta? Onde e quando surgiram? Quem lhe mandou trançar o cabelo, fumar marijuana e adorar certas cores ( verde, amarelo, preto e vermelho)?(continua)

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

LÍNGUAS NACIONAIS: 4ª E ÚLTIMA PARTE

Termino hoje a publicação de uma comunicação que apresentei no dia 9 de Novembro na Beira do ano 2000. Num seminário de reflexão sobre a Rádio ( Moçambique) e Televisão ( de Moçambique). Como terei dito algures, muitos dos dados apresentados na comunicação devem ser referenciados ao ano em que a mesma foi redigida, mostrado-se, por conseguinte, desactualizados. Não acontecendo o mesmo com as ideias e princípios, cujo interesse, aliás, justifica, no meu ponto de vista, esta partilha pública.

Há ainda um dado que importa trazer à liça. No censo de 1997, o CiNdau aparece como a língua mais falada na província de Manica, superando o CiManyika, o CiUtee, o CiBarwe e o Português. Há 16 anos a situação era bem diferente. O que aconteceu para este crescimento do CiNdau? Fenómenos migratórios? Mudança de atitude sociolinguistica? O que quer que tenha acontecido é extraordinário. E levanta um gravíssimo problema à Rádio Moçambique: devemos ( A RM-EP) introduzir o CiNdau em Manica ( Emissor Provincial de) ou não? Aliás, deve andar a RM-EP a introduzir e a retirar língua conforme as estatísticas vão mostrando cenários diferentes? Outro aspecto curioso é este: A RM-EP, ainda em Manica, transmite a língua Cibarwe. Este CiBarwe, que às vezes muda de nome e fica CiBalke, não aparece no citado censo de 1997 e em seu lugar surge o CiSena, com um expressivo 10 % de falantes. Houve inclusão, exclusão, diferenciação linguística? Como agir? Não deveremos olhar para as Rádios comunitárias como factor de peso nesta equação?

Uma das páginas mais críticas na experiência da RM-EP nesta matéria tem a ver com os recursos humanos. Tem acontecido realizarmos ( a RM-EP) um mesmo concurso para locutores em línguas nacionais durante um ano inteiro. Isto porque quando aparece um candidato, o mesmo domina a língua portuguesa, tem a décima segunda classe, mas é fraco na língua nacional. Quando é bom na língua nacional, não tem a décima-segunda classe. Quando satisfaz estas duas exigências, tem mais de 35 anos e não quer deixar o seu anterior emprego. Quando calha ser admitido, revela que não domina a ortografia das línguas nacionais e não conhece a variante utilizada nas emissões. A tudo isto deve-se acrescentar a relação crispada entre língua/cultura e sociedade. Por mais craques que sejam os profissionais, custa-nos explicar com sucesso, nas línguas nacionais, os problemas do bug informático do milénio ou o afundamento do submarino nuclear kursk ou ainda explicar como se retira e coloca as camisas de vénus ou que o coito interrompido é uma técnica de anti-concepção.

Distintos, a prática de utilização das línguas nacionais na RM-EP é irresistivelmente bela e sedutora. Bela e sedutora como uma rosa. Uma rosa que todos devemos cuidar para que exubere mais e mais e nos envolva com a sua fragrância. Uma rosa que, mesmo assim, é coroada por espinhos que não devem ser obliterados nem por nossa auto-castração nem pela ligeireza de quem deve investigar, aconselhar e decidir. E muito obrigado.

Beira, 9 de Novembro de 2001


ENGRAXADORES PIRATAS


Se existem transportadores semi colectivos piratas, acredito que tambem ha engracadores piratas, ou melhor nao licenciados...quais as multas aplicadas a estes..QUEM OS CONTROLA... Foram as perguntas feitas por Ouri Pota na primeira postagem que fiz sobre o "engraxador". Aqui estão as respostas,fruto de uma conversa que tive com um engraxador.


1. Engraxador piratas/não licenciados:

Os engraxadores piratas são poucos. Os piratas são engraxadores que não tem licença e não são membros da associação de engraxadores de Maputo. Eles tem material e quando descobrem uma esquina vão lá e ocupam. Quando são descobertos é-lhes arrancado o material. Agora, o que há mais são engraxadores licenciados mas que não renovaram a licença. É mais difícil descobri-los.

2. Que multa é aplicada ao engraxadores "ilegais":

como já disse, ao pirata é-lhe arrancado o material. O licenciado que não renovou a licença é obrigado a renovar ( a liçença) se quiser continuar na esquina dele. Mas não sei se há multa ou não.

3. Quem controla os engraxadores:

os engraxadores são controlados pela associação. Passa uma fiscalização. Este ano já passaram, mas muito tarde.

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

A CRISE MUNDIAL NO DISCURSO DIRECTO

Nas últimas semanas o assunto que mais espaço e atenção tem facturado nos meios de comunicação mundiais é a crise financeira internacional.
Como no resto, a nossa pobreza não só nos garante o conhecimento tardio e avulso da questão, como também reagimos olimpicamente ao passo de camaleão, quando o resto do mundo aborda a questão com indisfarçável vigor e sentido de urgência.
O nosso alheamento tropical, que nos conduz inegável e ciclicamente ao desonroso lugar de espectador em banja própria, é algo infinitamente mínimo comparado com a ignorância que temos sobre o assunto. Ignorância alimentada por uma imprensa e uma classe intelectual que pauta por fazer ressonância no ouvido do povo intoxicando-o com triliões de biliões de milhões de dolares em títulos de falidas correctoras imobiliárias e blá blá...Bem, se quisermos, eu também não consigo penetrar na tal fechada linguagem. E não sei também como me dirigir em miúdos aos meus. Resolvi então pedir a alguém que vive num país desenvolvido (Espanha) para me contar na primeira pessoa como está a viver esta crise. Coloco então as seguintes questões:
1. Fora o caos nas instituições, como é que a crise está a reflectir-se na vida das pessoas?
2. Pode explicar exactamente o que é a crise com base num exemplo simples, se possível verdadeiro?
Siga o texto tal e qual me foi enviado.
De verdade é que seria muito longo de plasmar as situaçioes de desesperação que se vivem dia a dia, os casos que saem nos meios de comunicação são vários e todos sabemos que os casos se contam a milhões de pessoas, verdadeiros dramas humanos, miles de pessoas buscando na lata de lixo das lojas e supermercados, os comedores socias e as caritas estão cada dia mais cheias.
Sabes que aqui são muito orgulhosos, mais não tem outro remédio que dar as testemunhas dia sim e outro dia também.Já somos todos experto em bolsas, a crises nos está obrigando a fazer curso acelerado de analistas económicas, sabemos terminologia que antes solo usavam e conhecia os experto, não se fala de outra coisa estes donde este, as conversaçoes privadas se convergem mais a temas de crises, se está convertido em mono tema.
(...)
A crises esta a passar factura de uma forma incrível, as pessoas estão passando mesmo mal e tudo isto porque muitas pessoas viveram durante anos por encima de suas possibilidades, as pessoas mudavam de carros cada dia, apartamentos, viajes caros, etc, agora que os tipos de interés estão altos a asfixia é total, os embargos são a diário e muitas pessoas estão devolvendo as casas aos bancos porque a hipoteca subiu e muito.
Eu desisti de comprar o apartamento que estava comprando por o mesmo motivo, estou vendendo e isto é quase um milagro encontrar a um comprador é um verdadero milagro, espero poder vender o antes possível porque inverti todo o meu dinheiro.
A venda do meu apartamento esta nas mãos da promotora, é uma casa nova e como ainda não tinha feito a escritura e segundo o contrato de compra e venda eles estão obrigados a devolver-me o dinheiro que eu estava pagando, mais a condição de encontrar um comprador, espero que encontrem um comprador e se conheces a uma pessoa que quer comprar uma casa aqui, já sabes dá o meu número. http://www.grupomagallanes.com/promos_curso/interorocana.html Aqui podes ver o apartamento.

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

ENGRAXADORES: QUEM OS CONTROLA?






O texto sobre engraxador mereceu um comentário. Com a permissão do autor, transcrevo a parte do fim ( o texto integral pode ser lido nos comentários ao artigo ENGRAXAR É MAIS CARO, postado no dia 14.10.08 : Se existem transportadores semi colectivos piratas, acredito que tambem ha engracadores piratas, ou melhor nao licenciados...quais as multas aplicadas a estes..QUEM OS CONTROLA...? aqui ficam as perguntas. Prometo retomar o assunto na segunda-feira. Muito obrigado ao meu amigo Ouri Pota, editor de um belíssimo blogue ( pode ver lá o programa completo das jornadas científicas do ISCTEM que decorrerão na próxima semana, em Maputo).

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

LÍNGUAS NACIONAIS E COMUNICAÇÃO (3 )

Esta é a terceira parte - a próxima será a última- da comunicação cuja publicação iniciei no dia 12.10.08)

Minhas senhoras, meus senhores. Estas experiências aqui apresentadas espelham uma parte da prática linguística da Rádio Moçambique e corporizam soluções circunstânciais que, entretanto, não podem ser consideradas as mais ideias nem definitivas. Há que procurar procurar elaborar uma política, como temos vindo a dizer, mais clara. Esta política deve necessariamente ter em conta que é impossível utilizar todas as línguas nacionais faladas no território nacional nas emissões da Rádio MOçambique. Mas deve procurar fazer reflectir a diversidade linguística regional incluindo o maior número possível daquelas que sejam veículos comunicacionais mais abrangentes.



já que estamos a falar de diversidade linguística e coisas afins, permitam-nos distintos presentes referir que o reino de aparente caos, indefinições e imprecisões não é propriedade exclusiva da Rádio Moçambique. Aliás, muitos dos problemas e cenários que acima descrevemos têm a ver com outras coisas. Por exemplo, nós temos dito de forma recorrente línguas nacionais. Como se fosse a coisa mais certa do mundo. Mas não é se calhar. E só olhar para o semblante desconfiado do Professor Ngunga ) Prof. Catedrático- Linguística-UEM). Não há ai também consensos. Fala_se de línguas nacionais como se fala de línguas nacionais de origem bantu. Alguns preferem apenas a expressão línguas bantu. Outros há que optam por dizer línguas moçambicanas, sem esquecer o anacrónico dialectos. Tanta coisa para referir a mesma realidade. Também não existe paz quando se tenta contar e nomear essas mesmas línguas. Ninguém sabe ao certo quantas são e como se chama cada uma delas. As diferentes abordagens fazem-nos saber ora da existência de X línguas ora de Y. Há línguas que aparecem em certa literatura desaparecendo misteriosamente noutras. Nalguns casos, certas entidades são consideradas línguas, noutras dialectos ou variantes e vice-versa. E isso,prezados, afecta a Rádio Moçambique. Para exemplificar, vejamos o caso do Tsonga. Integram-no o Ronga, Changana e Xitswa. para alguns linguistas, cada uma delas e uma língua independente da outra. Há quem argumente, entretanto, que língua é apenas tsonga, sendo as outras entidades apenas dialectos. E sendo que o emissor Interprovincial de Maputo e Gaza ( actualmente separados, existindo Emissor Provincial de Maputo e Emissor Provincial de Gaza) transmite a partir de Maputo, O Ronga e o Changana já tiveram emissões separadas. já tiveram uma emissão única, denominada emissão em língua tsonga, e agora voltaram a ter emissões separadas. Administrativamente isso obriga a uma continua reestruturação do quadro de pessoal, programação, etc. E no que da o Vagueness.(continua)

terça-feira, 14 de outubro de 2008

CIDADE DE MAPUTO; 13H45; RUA DA BEIRA


LÍNGUA MATERNA


Na última sexta-feira, 10.10.08, o Departamento de Ciências da Comunicação e linguagens da Universidade A Politécnica organizou, nas suas instalações em Maputo, uma mesa redonda sobre as línguas bantu. O evento decorreu no âmbito da indicação pelo unesco de 2008 como o ano da valorização da língua materna.



Foram oradores Sara Jonas e Pércida langa, linguistas e co-autoras dos dicionários de Gitonga e Ronga, respectivamente e o Padre Dionísio Simbe, autor do dicionário em Cisena. No debate, das perguntas feitas destaco as seguintes:

1. Qual foi o contexto e a motivação para a construção dos dicionários?
2. Porque é que, conscidentemente, os últimos dicionários publicados em Moçambique, das línguas bantu moçambicanas ( LBM), são bilingues no sentido LBM-Português?


Respostas

1. A construção do dicionário foi decidida: a)no âmbito académico; b) por um financiador c) por decisão pessoal;

2.os dicionários são bilingues porque: a) o dicionário monolingue é muito mais exigente do ponto de vista filosófico(sic); b) porque pode ser útil ao processo de construção do sistema de ensino bilingue em curso no País.

As minhas impressões


  • gostaria que o tema tivesse levado mais pessoas ao local;
  • foi óptima a ideia de convidar e dar oportunidade a um músico e um declamador de poesia mostrarem a sua arte;
  • infelizmente,o conhecimento sobre conceito de língua materna e a consciência sobre a realidade linguística moçambicana pareceram-me deficientes.



segunda-feira, 13 de outubro de 2008

engraxar é mais caro


o engraxador de sapatos que habitualmente me presta serviços chamou-me atenção para o facto de o preço de "engraxar" ter subido de 7.50 para 10 meticais ( sapato normal). A medida, tomada numa reunião havida na passada quinta-feira na associação dos engraxadores da cidade, devia entrar em vigor esta segunda-feira, 13.10.08. . Aproveitei a ocasião e fiz 3 perguntas:



1. O preço para engraxar sapatos de homens e mulheres é o mesmo?

R: Sim. O preço é o mesmo. Mas mulheres discutem muito e eu acabo sempre por baixa. Agora que o preço subiu para 10 meticais, às mulheres cobro 7.5 mt.

2. Os engraxadores pagam impostos?quanto e que tipo ?

R: Não sei (depois de algumas explicações conclui que o que se paga é uma taxa fixa anual por alturas da renovação da licença).

3. ao fim do mês ganha mais do que o salário mínimo?

R: (risos) o que ganho dá para viver.

- mas quanto ganha por semana...

R: ....

- uns 200 mt...350... ( um vendedor de recargas de celular que está estabelecido ali próximo, confirma )



Nota:

se essa for a média semanal,certamente o meu entrevistado deverá uns 1200-1500 mt\mês, no mínimo.

CASA VELHA (2)


Na última postagem sobre "casa Velha", no
fim texto, deixei entender que ia mostrar
uma lista de peças de teatro exibidas pela
Associação cultural da Casa Velha, dizendo
vide imagem acima. Mas não havia nenhuma
imagem com a tal lista. O que o faço desta
vez, com um pedido de desculpa.

LÍNGUAS NACIONAIS E COMUNICAÇÃO (2)



Dou seguimento a apresentação da comunicação que partilhei no seminário de reflexão sobre a Rádio e Televisão realizada na Cidade da Beira no ano 2000. Chamo a atenção para o facto de alguns dados citados estarem ultrapassados ( indiquei com * e ** os mais evidentes).

A questão imediata que se colocou à Rádio Moçambique é: transmitir sim em Línguas Nacionais,mas em quais. Os Estatutos da Rádio Moçambique dão a resposta: nas línguas moçambicanas mais faladas em cada província. Aí o programador ( e o decisor) de rádio pergunta: quantas línguas faladas devem ser consideradas as mais faladas( em cada província): quatro, três ou apenas duas? A Rádio Moçambique abraçou diferentes critérios, partindo da análise caso a caso. è verdade que Rádio Moçambique um único entendimento sobre esta matéria, mas o resultado denuncia o manuseamento de muitas visões. Na Zambézia, por exemplo, transmite em duas línguas nacionais; em Inhambane em 3 ( em certo momento, introduziu uma quarta- o CiNdau); em Cabo Delgado, 4...

Deste cenário multilingue emerge um outro problema. Quanto tempo de antena deve ser atribuído à qualquer uma das línguas nacionais em questão? aqui a Rádio Moçambique optou, no geral e no espírito, por estabelecer uma relação proporcional entre tempo de antena e número de falantes. Porém, o resultado é muito complicado e de certa forma contraditório. Por exemplo, o Makhuwa, em Niassa tem de emissão diária 1 hora e é falado por 48 % da população. O Cinyanja, com 8 %, tem 4 horas diárias *. Temos ainda caso da língua sena que é falada por 8 % da População na Zambézia, 12 em Tete, mas não é transmitido naquelas províncias. O Kimwani, porém, com apenas 6 % de falantes em Cabo Delgado, tem duas horas de emissão. O Português, apesar de ter nitidamente poucos falantes, em todo o território nacional, ocupa nos emissores provinciais cerca de 45 % do tempo de transmissão **. Há muitas razões que explicam este estado. Mas avulta o princípio de ser língua de unidade nacional; o de ser língua de ensino; língua, portanto, oficial. E , por fim, é indiscutível que o português é a língua cuja distribuição inter-regional supera qualquer outra falada em Moçambique.

As diferentes maneiras de falar uma mesma língua também proporcionam alguns constrangimentos. Dentro do ndau,por exemplo, falado na província de Sofala, há inegáveis diferenças.Por exemplo, o Cindau falado na cidade da Beira e o de Machanga, mais a sul, não é igual. Alguns críticos podem dizer que este problema não atrapalha a comunicação; que as pessoas acabam entendendo-se. É verdade, sim senhor. Mas cada um fala e ouve com mais agrado a variante que os pais e avós lhe ensinaram. E mais. Existe uma tendência para rejeitar ou estranhar outras formas de falar a mesma língua. Contudo,a própria comunidade de falantes da mesma língua acaba elegendo uma das variantes como a de referência ( ou franca, ou de maior estatuto) que é aceite, falada e compreendida por todos. Tem sido esta variante que a Rádio Moçambique selecciona para as suas emissões. Na falta desta aceitação ( compromisso) tácita a este nível, são convocados outros elementos sócio-linguísticos, tais como políticos,económicos, históricos,sociológicos,localização geográfica, etc. (continua)


domingo, 12 de outubro de 2008

LÍNGUAS NACIONAIS E A COMUNICAÇÃO

No ano 2000 fui convidado a apresentar umas ideias num seminário de reflexão sobre a rádio e televisão. Sob a perspectiva da "experiência da utilização das línguas nacionais na Rádio Moçambique" elaborei e apresentei um texto com o título línguas nacionais e a comunicação. Aproveito a ocasião para agradecer, pela confiança, aos amigos Manuel Veterano e Julieta Langa, de cujas mãos recebi o convite.


Ora, como o próprio título já informa, devíamos falar das Línguas Nacionais e da Comunicação. Devíamos mas não o faremos. Não o faremos porque,embora desconfiemos saber o que é comunicação, falar dela, em toda a sua amplitude e complexidade, com a paixão necessária, exige outro tipo de capacidade e conhecimentos que, sinceramente, não possuímos. Por isso, e se os presentes a mesa não se importarem, teremos por objecto a prática e experiência da utilização das línguas moçambicanas na Rádio Moçambique.


Ao falarmos deste tema, imediatamente, algumas perguntas se impõem: Que importância têm as línguas nacionais no funcionamento de uma empresa do sector público da comunicação como é a Rádio Moçambique? Que interesse tem falar deste assunto já por demais aflorado e sobre o qual parece que todos sabemos alguma coisa e está tudo dito? E, por último, que direito nos assiste de vos ocupar com uma reflexão que, como verão, poucas novidades apresenta?


A resposta à primeira questão encontra-mo-la na Constituição da República e nos Estatutos da Rádio Moçambique. Se a Constituição da República, no seu artigo quinto, peca por ser demasiada oca na sua formulação, os Estatutos da Rádio

Moçambique, apesar de serem mais explícitos não avançam muita coisa aí além. O artigo quarto, por exemplo, indica que um dos fins genéricos da radiodifusão da Rádio Moçambique é e cito " promover e divulgar a língua portuguesa e as línguas moçambicanas", fim da citação. É no artigo sétimo, na sua alínea b, que se avança um pouco mais. Diz-se aí que a Rádio Moçambique emitirá " pelo menos uma emissão de âmbito provincial em português e nas línguas moçambicanas mais faladas em cada uma das províncias". Se analisarmos com profundidade as duas citações, pelas suas implicações, veremos que elas desencadeiam quase a mesma significação; respeitam a mesma estratégia de alguma indefinição, de ausência de compromissos; de muita superficialidade no trato. Há, portanto, necessidade de uma formulação menos vaga e mais clara nos objectivos, estratégias e nos procedimentos. Os senhores aqui presentes sabem certamente do estamos aqui a falar. E foi procurando mitigar esta lacuna que nas últimas duas décadas a Rádio Moçambique desdobrou-se em inúmeros seminários e reflexões sobre as línguas Moçambicanas ( continua).