terça-feira, 1 de setembro de 2009

ilha de moçambique: baluarte da imprensa e da literatura










































Prometi aos meus estudantes do primeiro ano das Ciências de Comunicação, como complemento às aulas sobre o surgimento da imprensa e da literatura em Língua Portugesa em Moçambique, as fotos que hoje posto. postais da Ilha de Moçambique. Vale recordar que em Maio de 1854 aparece a primeira publicação periódica em Moçambique ( Boletim do Governo de Moçambique). passam hoje 155 anos.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

HISTÓRIA DA ELECTRIFICAÇÃO DE NIASSA

Nos últimos meses andei empenhado em concluir um livro sobre Electrecidade. Mais concretamente, sobre a história da electrificação de Niassa. Foi uma viagem sem igual. Deixo-vos a capa, umas linhas do autor e outras tantas minhas, na qualidade de editor e organizador.
O livro, o autor e o leitor

O livro
O livro resulta da transformação de um trabalho de pesquisa, com o qual o autor participou num concurso interno da empresa EDM – EP.

Percorrendo a brochura que deu origem ao livro, ficou-me claro que o autor cavou com desnudado gosto e prazer histórias de pessoas e de vivências, de tal sorte que o objectivo enunciado, o de recolher e sistematizar a memória dos caminhos e datas que a energia eléctrica percorreu no território da Província de Niassa, se insinuava apenas como intenção motora, pois, e irredutivelmente, é a história das pessoas que o autor teima em capturar e não consegue deixar de escrever. São os homens que sulcam as montanhas e os vales. São eles que espetam postes e fazem deslizar os cabos condutores. É a adrenalina e a intrepidez dos técnicos que faz a luz iluminar. É uma tensão que se estabelece entre a riqueza e o protagonismo da acção humana e a consciência de localizar no tempo e espaço os mecanismos e instrumentos relacionados com a produção, distribuição e gestão da energia eléctrica.

O título
Deste modo, a fixação do título transformou-se num novo espaço de rediscussão e assumpção da abordagem da obra. Por exemplo, estava claro que o mote do livro eram os sistemas de geração de energia. À medida que o livro ia ganhado forma, anunciava-se, porém, com maior nitidez, a presença em primeiro lugar de uma história humana. E, em segundo, um alargamento do âmbito de “centrais térmicas” para “electrificação da Província de Niassa”, abarcando-se e publicando-se todas tais dimensões e matizes no título.

O conteúdo
É a história da electrificação de cada um dos distritos da Província de Niassa. E da cidade de Lichinga. Exumando-se memórias de como começou a electrificação em cada local. Depois faz-se uma descrição cronológica dos eventos até aos dias de hoje. Foi uma pesquisa demorada e penosa (rebuscando imagens fotográficas e dados que o tempo teimava em esconder); o cruzamento de trabalho de campo e horas de consultas a documentos, muitas vezes, manejando dados não reconciliáveis, outras vezes, absolutamente contraditórios. Há referências históricas que são fixadas com diferenças de décadas e, até, às vezes, com variação de lugar de ocorrência. Em tais casos, a decisão tomada é sempre um risco. Mas tomada com serenidade e toda a responsabilidade. O que é certo é que outros autores ajudarão a construir uma história mais exacta. Corrigindo-se imprecisões e percalços involuntários, afinal, a pesquisa apenas iniciou.

O leitor
Aos técnicos da área da electricidade o livro será muito útil. Os gestores e decisores políticos poderão aqui rever-se para melhor aquilatar o futuro. Os estudantes e interessados pela de electricidade e história do crescimento de cidades e vilas do Niassa encontrarão nesta obra muitos dados de referência.
...
E, para a EDM – EP, um certo desafio terá sido já, certamente, abraçado: o de estender esta abordagem de resgate da história às outras províncias e eventos ligados à área. E editar mais livros. À EDM – EP, pela confiança, agradeço. Ao autor, dr. Rodrigues Laidone, pela perseverança, um abraço de muita solidariedade.

António Miguel Ndapassoa (editor)
Breve nota introdutória

A história da descoberta do fenómeno de electricidade remonta da antiga civilização grega. Assim, o termo electricidade provém do grego "ambar". Conta-se que o fenómeno ocorreu pela primeira vez com Tales Mileto que ao experimentar várias vezes, e repetidamente, a fricção do ambar terá descoberto esse fenómeno.

Depois desta descoberta passaram muitos séculos, até que o processo da geração e manuseio da electricidade fosse suficientemente conhecido e controlado. Só assim a sua utilidade conquistou a alma da Humanidade, despoletando uma verdadeira revolução histórica e universal. Nesse desiderato, cujo marco se pode situar no século XVI, avultam os nomes de cientistas como William Gilbert, Otto Von Guerike, Benjamim Frankly, Georg Simon, Alessandro Volta. Resultaram daí abordagens mais firmes no domínio da electricidade, na forma estática e na forma corrente que, por sua vez, transportou-nos para a era do pleno desenvolvimento económico e industrial iniciado no século XIX.

A energia eléctrica está recheada de múltiplas vantagens, uma delas é a invocada iluminação de lugares públicos e residências, para além das fábricas, grandes complexos industriais, minas e outras unidades económicas que laboram com a energia. Aliás, é difícil imaginar, na contemporaneidade, a vida sem este recurso. Basta um simples corte de corrente eléctrica para colapsar a cadeia de sistemas e eventos que é a sociedade e complicar a vida de milhares e milhares de pessoas.

Antes da Independência Nacional, em Moçambique, e muito em particular em Niassa, a electrificação era assegurada pelas câmaras municipais, pois a estas tinham sido adjudicadas os Serviços de Exploração de Energia, e que asseguravam todo um conjunto de processos. Nos locais onde não existia este corpo administrativo eram as administrações coloniais que mantinham esta actividade.

A câmara municipal era monitorada pelos Serviços Autónomos de Electricidade de Moçambique, que possuía a sua sede em Lourenço Marques, actual Maputo. Para questões técnicas existia a COMEL (Consórcio de Máquinas e Electricidade) que, para além de se responsabilizar pelas reparações, era agente dos grupos geradores, como a Deutz.

Niassa começa a ser electrificado a partir de 1935 através de uma central a lenha. Depois passou para uma central a diesel, e mais tarde por uma cadeia de processos e dificuldades enormes até ser ligado à rede nacional de energia em Julho de 2005. Em Cuamba existia a Comissão Municipal do Amaramba que desempenhava esta actividade. Nos restantes distritos, não havendo um corpo Administrativo, as administrações é que vinham desempenhando esta função.

Conhecer, descrever e partilhar todo esse longo processo de produzir e distribuir energia foi e é o meu grande objectivo. A obra não esta concluída. O que mais me motivou era começar. E dizer. é possível.
Rodrigues Laidone ( autor)

quarta-feira, 1 de julho de 2009

coragem e cara de pau











É preciso ter muita coragem para expor a cara de pau. Não é um qualquer mortal que se arremete a tal situação... vamos lá, ainda que compungido ou acobertado por desculpas tidas por dignificantes e por menos esfarrapadas que elas sejam.

No primeiro semestre do ano passado estive em Gurue. Distrito situado na zona norte da Província da Zambézia e que faz limite com Niassa. Tratou-se de uma viagem de sonho. Um sonho que valeu, pois de facto Gurue é um sonho. A parte o desmazelo que estava o centro da "cidade".


Um conhecido meu esteve por la neste ano e ofereceu-me a s fotos que vemos. Trata-se de Ansferrao, um amigalhaço agora picado pelo vicio da fotografia de circunstancia. Para salvacao deste rastejante blogue.


Eu também não reconheci gurue nestas fotos. Esta com uma face muito renovada, arranjadinha.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

CABRITOS, CABRITADAS, CABRITICES...


Esta imagem está a animar as conversas em muitos chats. Foi tirada sobre a ponte Samora Machel, cidade de Tete ( Moçambique). Famosa pelos seus cabritos e histórias de crocodilos.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

PRAIA KRIOLA


Por mero acaso não consigo evitar o cruzamento com a referência PRAIA. Desta vez, tratando-se da capital de Cabo Verde. Cidade a partir da qual o jornalista e professor universitário CARLOS SANTOS ( CS) edita uma blogue. Feito à medida e feitio. Belo e incisivo no Verbo. um blogue cuja leitura recomendo aos que se interessam por coisas de jornalismo e comunicação social. Chama-se kriolradio.blogspot.com e como o autor enquadra "dedicado" a analise e o comentário à rádio de cabo Verde.

segunda-feira, 20 de abril de 2009

PRAIA





Muito recentemente uma publicação norte-americana integrou a Praia de Jangamo ( província de Inhambane) na lista das 50 mais belas do mundo. O que muito nos orgulha ( e nos traz mais e mais turistas). Não vi a lista. Não sei, portanto, quais as outras 49. Não sei, por conseguinte, se há mais praias moçambicanas ou não. deixo aqui fotos da praia de Pemba( Cabo Delgado- Norte de Moçambique). Alguém tem as de Jangamo? Pode aqui partilhar, essas e de todas outras maravilhas deste nosso rico Moçambique?

terça-feira, 14 de abril de 2009

MPHYANGA

Conforme a promessa, e ainda ligado ao lançamento simultâneo no próximo dia 15 de Maio na Beira dos Livros Mphyanga e Nzerubawiri ( edição revista e aumentada) de José Pampalk, recebi do autor o texto que segue e que publico tal e qual. Boa Leitura. Preste-se atenção ao conto, de uma beleza e riqueza notáveis.


“... O presente livro ‘Mphyanga?’ pretende reanimar esta capacidade corajosa de perguntar e de aceitar ser perguntado. Se não houvesse mais sessões ou artistas a ‘cantar contos’, então, tornava-se urgente reinventar este modo de contar contos. Os contos deste livro (...) exprimem, por símbolos e metáforas, as perguntas importantes, que nos fazem muita falta, hoje! Certamente, jornalistas competentes e independentes assumem, hoje, um papel importantíssimo, mas, perdendo-se a tal literatura oral e viva, perde-se com ela a capacidade de pronunciar e entender perguntas discretas, formuladas sob imagens e fábulas, mas pertinentes; perde-se também o necessário humor que sabe aceitar críticas.

Diezm que, no Malawi, os lideres e os que têm um conceito deformado da chefia ficam demasiado sensíveis e resistentes à crítica, aplicando, especialmente aos chefes o provérbio geral: uma batata doce curva não se deixa endireitar! (Nzeru n.406, modificado em Chewa assim Nfumu ndi mbatata, ukangola wathyola). O relatório final dum estudo observou em Moçambique uma tendência semelhante de dirigentes interessados “de que fosse veiculado uma informação que não revelasse a realidade, que fosse parcelar e reflectisse apenas as suas próprias leituras da realidade” (Sociedades Pós-Guerra 1997:30). Sendo entâo, a literatura oral e a comunicação social instrumentos da reconciliação nacional e de desenvolvimento comunitário, deve-se investir mais e ao mesmo tempo na capacitação jornalística e também na literatura oral, recolher, compilar, estudar colecções de contos, não para fechá-las em arquivos e assim esquivar-se ao desafio, mas para expôr e ir ao fundo destas questões expressas, desde o conto do timba no prólogo (c.1) até ao da cadela preta no epílogo (c.55).

Noutros contos simbolizam vários animais as duas possíveis tomadas de posição do coração, dum cidadão, chefe ou marido. Nem sempre ambas as alternativas são explicitamente elaboradas. Uns limitam- se a denunciar somente a escolha a mais destructiva, deixando aos ouvintes a pensar noutra escolha mais constructiva. Mas nestes dois contos a estrutura e a mensagem são muito claras: O do pássaro timba coloca-nos a todos diante da questão primordial “É meu, ou pertence a algum outro?” Sua reacção “é meu (Mphyanga)” desmáscara a atitude epidémica, mundialmente mais grave, e sua interpelação é válida e crucial para cada país, organisação, aldeia ou casal....

(o primeiro conto, página 28-30)

1. O Passarinho Timba

(é meu ou pertence a todos?)

Um dia o Leão, rei dos animais, encontrou o muito pequeno passarinho Timba a comer uma larva. Então, o Leão perguntou-lhe:

– Ora essa, porque estás a comer estas larvas pequenas; não gostarias mais de outra comida boa, como milho ou gafanhotos, grilos e outra bicharada pequena?

E, logo, o Timba respondeu:

– Sim gostaria, meu senhor, mas como posso?!... Este meu bico e esta minha pouca força não chegam!...

– Gostarias mais ser uma galinha do mato? – perguntou-lhe o Leão.

– Sim, gostaria tanto! – respondeu logo o Timba.

O Leão, então, ordenou:

– Doravante, serás uma galinha!

E o Timba, realmente, transformou-se numa galinha, começando, com muita satisfa­ção, a comer também milho e gafanhotos, grilos, caranguejos e outros bichos pequenos.

Passados uns tempos, encontrou-se de novo com o rei Leão, que não tardou a perguntar-lhe:

– Então, Nfumu Galinha! Estás muito contente, não é?

– Oh, meu rei, está a querer saber, de novo, como estou bem?! Sim, os grilos, gafanhotos, caranguejos, agora, são para mim uma brincadeira! Mas há outros animais que eu ainda não consigo comer: os outros pássaros, como as rolas e os pombos, por exemplo. Se eu fosse uma raposa, então, não fariam mais troça de mim!

– Está bem, transformo-te numa raposa!

E o Timba tornou-se raposa, de verdade. E nenhuma ave, galinha, rola, galinha do mato ousava mais passar perto dele. O Timba-raposa, contente, encontrou-se de novo com o Leão que quis saber:

– Então, raposa, agora estás feliz e consegues apanhar as tuas aves?

– Ó meu rei, agora sou eu o salteador das galinhas, patos do rio, patinhos e outros. Somente ainda não consigo apanhar cabritos do mato, antílopes anyasa ou estes roedores nsenzi. E, quando observo como o felino njuzi os apanha com facilidade, então sinto inveja por não poder fazer o mesmo.

Assim confessou o Timba-raposa e o Leão disse-lhe:

– Se quiseres, sejas, então, também um felino njuzi! – concedeu-lhe o rei dos animais.

Assim, foi o Timba transformado num njuzi, um felino somente um pouco mais pequeno do que o leopardo. Então, todos aqueles animais andavam de rastos: cabritos, antílopes, nsenzi... Passados três, quatro meses, cruzou-se o Timba-njuzi, de novo, com o seu rei:

– E agora, como estás nfumu Njuzi?

– Ó rei, nem te consigo contar como estou divertido com as minhas caças. O que sinto falta de poder apanhar é os mesmos animais gordos que o leopardo caça, como antílopes ntsengo, gazelas mbawalas, javalis...

O Leão só teve de lhe cortar palavras e desejos, e consentiu:

– Serás leopardo!

Logo, naquele momento, transformou-se o Timba num leopardo. Antílopes ntsengo, gazelas mbawalas, javalis, não tiveram mais descanso perto dele. O Timba-leopardo gozou durante dois, três anos, até deparar com o seu rei:

Nfumu Leopardo, como anda isso com as gazelas?

Mambo Leão, pode ver o meu corpo engrossado! Toda a família das gazelas já não gozam mais comigo. Quem ainda faz pouco de mim, são os antílopes grandes ílandes e ndondonga ou os búfalos. Se conseguisse apanhá-los também a eles, nunca mais diria nada.

– Escuta bem, – respondeu-lhe o Leão, – se quiseres ser um leão devemos combinar uma só coisa. A única condição será a seguinte: quando tu rugires, nunca deves rugir “Mphyanga! é meu, é meu!” O teu rugir deve ser o seguinte: “Mphya mwanacinthu! é dum dono, é dum dono!” Ouviste?

– Oh rei, só isso? Aceito esta condição e prometo fazer como me mandas! – respondeu o Timba-leopardo.

– Então, transforma-te num leão! – concedeu-lhe o rei dos animais, e o Timba passou a ser também um leão.

Assim, passaram anos, até o Timba-leão se enfrentar com um búfalo, um macho grande e temível. Matou-o. Parou em cima da sua presa e começou a rugir:

Mphyanga-a-a! Mphyanga-a-a! É meu-u-u, é meu-u-u!

O Leão rei ouviu este rugido e seguiu-o. Quando o Timba-leão notou o rei a aproximar-se ficou assustado e procurou palavras evasivas:

– Meu senhor, matei esta caça e, por isso, chamei-vos para a comerdes...

– Mas, porque rugiste tu hoje assim: “É meu, é meu”?

O rei Leão perguntou e o Timba-leão não sabia que resposta dar. O rei ameaçou, então, transformá-lo de novo naquele animal que o Timba era inicialmente. O Timba-leão procurou desculpar-se, mas o rei foi-lhe lançando uma pergunta a seguir a outra:

– Antes de ser leão, quem eras tu? – perguntou o rei.

– Eu era leopardo, – admitiu o Timba.

– Passas a ser leopardo! E come! – retorquiu o Leão rei e o Timba foi de novo leopardo.

– Antes de ser leopardo, quem eras tu? – continuou o Leão a perguntar.

– Eu era um felino njuzi! – admitiu o Timba. E o Leão mandou:

– Voltas a ser um njuzi, come lá a tua presa! E quem eras tu, antes?

– Era raposa!

– Volta a ser raposa e come depressa, senão ficas sem comer. E, antes, quem eras tu?

– Era galinha, respondeu chorando o Timba.

– És galinha de novo.

Acabado de ser rebaixado ao estado de galinha, Timba ouviu já a última pergunta:

– Quem eras tu, antes?

– Era um passarinho timba!

– És um timba! E comerás as larvas quando o teu búfalo tiver apodrecido!

Aqui acaba o meu conto. Quem sabe o seu, que o conte por sua vez.


terça-feira, 31 de março de 2009

NZERUMBAWIRI


Está previsto para Maio próximo o lançamento na Beira e Maputo da Edição revista e aumentada de Nzerumbawiri, colectânea de provérbios da língua Sena. O livro , da autoria de José Pampalk, estudioso austríaco da língua sena, é o resultado de uma investigação realizada para obtenção do grau de doutoramento. a Primeira edição de Nzerumbawiri ( o melhor juízo é o de duas pessoas) foi dada à estampa pelas Edições Paulinas em 2003.

Na mesma ocasião, o autor lançará também um livro de contos com o título Mphyanga.
Deixo-vos com com as lindas capas destes livros. Proximamente, e assim que o autor mos disponibilizar, conto publicar alguns provérbios e contos dos novos livros.

quarta-feira, 25 de março de 2009

ascensão e queda do fundamentalismo de mercado

Aqui fica a segunda e última parte do artigo enviado com pedido de publicação


ASCENSÃO E QUEDA DO FUNDAMENTALISMO DE MERCADO

(Obama e a Necessidade de se Vigiar o Mercado)

Por: Andes Chivangue[1]

FREE MARKET [2] E O FUNDAMENTALISMO DE MERCADO



[1] Licenciado em Relações Internacionais e Diplomacia pelo Instituto Superior de Relações Internacionais. Docente de Economia Política na Universidade Pedagógica – Delegação de Gaza.

[2] Livre Mercado



OBAMA E A NECESSIDADE DE SE VIGIAR O MERCADO

Terminada esta revisão panorâmica sobre algumas das mudanças que o neoliberalismo económico sofreu nos últimos dez anos, é altura de reflectir em torno da necessidade de se vigiar o mercado, a consequente queda do fundamentalismo de mercado como paradigma dominante e a consolidação da abordagem do Estado Amigo do Mercado.

A nossa reflexão parte do discurso de tomada de posse de Obama, mais precisamente do seguinte trecho:

... a questão que nos é colocada não é se o mercado é uma força para o bem ou para o mal. O seu poder de gerar riqueza e aumentar a liberdade é ímpar, mas esta crise veio lembrar-nos que, sem um olhar atento, o mercado pode descontrolar-se, que um país não pode prosperar durante muito tempo quando só favorece os ricos” (Vertical, 2009: 3–4).

Embora estas palavras estejam enquadradas no contexto da crise económica global, elas contêm em si o essencial sobre o que este presidente pensa que deve ser a relação entre o homem, o Estado e o mercado. De facto, hoje há muitas questões que devem ser colocadas. É preciso interrogarmo-nos se será sustentável uma economia cujos pilares assentam no egoísmo individual e numa fé cega no mecanismo de mercado. A resposta a estas questões poderá levar-nos à conclusão de que uma economia que esmaga os mais elementares valores do ser humano e serve apenas a uma minoria, só legitima as teses segundo as quais os pobres constituem o sustentáculo do motor do capitalismo global. O número de indigentes e paupérrimos aumenta a cada dia e em quase todo o mundo, como resultado das externalidades negativas que advêm da falha do mecanismo de mercado ou do seu descontrolo.

Aliás, o raciocínio de Obama pode ser confirmado pelas palavras de Amartya Sen quando este argumenta que:

há muitas provas empíricas de que o sistema de mercado pode ser um motor de rápido crescimento económico e elevação dos níveis de vida. Políticas que restringem as oportunidades de mercado podem ter o efeito de restringir o alargamento das liberdades concretas que seriam geradas graças ao sistema de mercado, através, sobretudo, da prosperidade económica. O que não implica negar que, por vezes, os mercados podem ser contraproducentes - como o próprio Adam Smith fez notar, ao sustentar particularmente a necessidade de controlar o mercado financeiro(2003: 41).

Importa dilatar ligeiramente o objecto desta reflexão e procurar estabelecer uma possível ligação entre o discurso de Obama e a problemática questão da revisão da ordem económica global. Na verdade, a crescente segmentação exclusiva que os países da periferia vivem, comparativamente aos do centro, resulta grandemente da forma como a malha da actual ordem económica mundial foi tecida. Os países da periferia encontram-se à margem destes benefícios apontados pelo estadista norte americano e pelo estudioso Sen. A África, em particular, participa no comércio internacional de forma bastante desvantajosa devido aos já conhecidos aparatus de restrições às exportações provenientes dos países menos desenvolvidos e os subsídios à agricultura.

Por outro lado, não sendo a referida vigilância dos mercados do âmbito apenas nacional, devendo essencialmente iniciar no plano internacional (podendo ser o contrário, garantida a ausência de risco duma corrida ao proteccionismo), seria justo que à esta preocupação estivesse subjacente, também, o interesse em ter-se uma ordem económica mundial inclusiva, ou pelos menos capaz de obedecer a um processo de inclusividade crescente. Só assim é que, de facto, se poderia olhar plenamente para o mercado como gerador de benefícios.

Voltando ao objecto central do artigo. Diante desta concatenação de factores, pode-se afirmar que a necessidade de se vigiar o mercado só constituirá uma preocupação legítima se ela incluir, também, a preocupação em melhorar a qualidade de vida das populações pobres que sobrevivem à margem dos benefícios que o mercado gera. Esta vigilância tem de ir para além da precaução em relação a futuras crises. Deve garantir que haja um processo de inclusividade crescente ou progressiva, como acima nos referimos.

CONCLUSÃO

Se a abordagem do Mercado Livre vê o mercado como um órgão com vida própria, sendo capaz de se auto-regular, a abordagem do Estado Amigo do Mercado apela para a necessidade de intervenções selectivas e pontuais. Ou seja, onde o mecanismo de mercado falha o Estado deve entrar colocando infra-estruturas e corrigindo externalidades negativas.

A preocupação de Obama sobre a necessidade de se vigiar o mercado está em consonância com a abordagem do Estado Amigo do Mercado, deitando por terra a ideia de que os processos que caracterizam as dinâmicas numa economia de mercado tendem sempre para o equilíbrio. Os mercados financeiros constituem um bom exemplo de que nem sempre é assim.

A magia do mercado na expansão das liberdades, consubstanciadas no melhoramento da qualidade de vida das pessoas, só será efectiva quando a actual ordem económica mundial for capaz de tornar vantajoso o comércio entre os países da Periferia e o Centro.

No caso de Moçambique, no tocante ao momento anterior e posterior às mudanças operadas dentro do paradigma neoliberal, durante quase toda a década de 1990 parecia que os dirigentes estavam a demitir-se do seu papel. Quantas vezes não ouvimos desde ministros a directores a afirmarem, ante preocupações genuínas da população, que o Estado só regula, como se estas duas entidades fossem distintas. Tratava-se, na verdade, de uma reprodução do discurso ocidental, ora assente no fundamentalismo de mercado.

Felizmente, hoje temos um cenário relativamente diferente. Os nossos líderes continuam a ser caixas de ressonância mas com a tónica do discurso centrada no povo. Se do discurso passarão à prática, isso só o tempo dirá. Por enquanto, a manutenção do poder pela conquista do voto e a vassalagem aos doadores é que continuam a determinar o curso da acção da política nacional.

BIBLIOGRAFIA

· SEN, Amartya (2003) Desenvolvimento Como Liberdade, Grádiva, Lisboa.

· SOROS, George (1999) Crise do Capitalismo Global , A Sociedade Aberta Ameaçada, Temas & Debates, Lisboa.

· STIGLITZ, Joseph (2002) Globalização, A Grande Desilusão, Terramar, Lisboa

· Vertical nº 1747, 27.01.2009, Maputo.

· ESTÊVÃO, João r. ( 1997) O Estado e o Desenvolvimento Económico: elementos para uma orientação de leitura, ISEG, Lisboa.

· EUCKEN, Walter (1998) Os Fundamentos da Economia Política, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa.

sexta-feira, 20 de março de 2009

ASCENSAO E QUEDA DO FUNDAMENTALISMO DE MERCADO

Aqui fica a primeira parte de mais este atento olhar sob um tema de actualidade.
ASCENSÃO E QUEDA DO FUNDAMENTALISMO DE MERCADO
(Obama e a Necessidade de se Vigiar o Mercado)

Por: Andes Chivangue
[1]


FREE MARKET
[2] E O FUNDAMENTALISMO DE MERCADO

Durante estas quase duas décadas o paradigma económico dominante foi o neoliberalismo. Esta abordagem ganha contornos de algum extremismo a partir dos anos 1980, com a ascensão de Margaret Thatcher na Inglaterra e Ronald Reagan nos estados Unidos da América. Com estes dois líderes mundiais os princípios liberais foram assumidos e implementados à letra, de tal sorte que hoje, em muitos fora, é unânime a ideia de que os seus apóstolos depositaram uma fé cega no mecanismo de mercado e na sua suposta magia. Os efeitos desta atitude foram tão adversos – e continuam – que autores como Soros e Stiglitz passaram a designar este grupo de neoliberalistas por fundamentalistas de mercado.

Os adeptos desta abordagem, normalmente ligados ao Fundo Monetário Internacional (FMI) e Banco Mundial (BM), argumentam que o interesse comum é muito mais bem servido pela busca desenfreada do interesse próprio. Sustentam a todo o custo a convicção de que os mercados se auto-regulam, sendo essa a justificação para procurarem abolir o processo de tomada de decisões colectivas e impôr a supremacia dos valores do mercado sobre os valores sociais e políticos (Soros, 1999: 20 e 75).

Esta forma de interpretar o papel da economia poderá estar ligada à questão do método ou modelo de análise. Muitas das correntes de pensamento económico anteriores ao Market Friendly
[3] eram entusiastas ferrenhas do homo economicus e do individualismo metodológico. Estas duas representações esquemáticas de estudo do comportamento do homem transportam consigo a carga desvantajosa de serem demasiado abstractas e apartarem-se da realidade (talvez resultado do dedutivismo exacerbado que lhes é característico, sobretudo para o caso do homo economicus). É assim que se passa a olhar o egoísmo individual como uma das peças da engrenagem que promove o crescimento económico.

A partir dos seus pressupostos teórico-metodológicos advieram males como a divinização do mercado e a total aversão a qualquer tipo de intervenção do Estado na economia, encontrando-se aí uma das razões por que advogaram políticas de encurtamento do aparelho estatal. Por outras palavras, pode-se afirmar que os fundamentalistas de mercado assumiam o conceito de free market na sua total e mais restrita acepção.


MUDANÇA DE ABORDAGEM

Foi o insucesso das medidas preconizadas pelos fundamentalistas de mercado que, nos anos 1990, forçou uma série de revisões promovidas pelo BM, desenvolvendo-se assim a abordagem do Estado Amigo do Mercado. Esta vertente é consubstanciada por três relatórios importantes, nomeadamente World Development Report (1993), The East Asian Miracle (1993) e World Development Report (1997).

O primeiro traz consigo a ideia de que a questão fulcral já não é a minimização ou eliminação da intervenção do Estado na Economia mas sim a necessidade de uma complementaridade “saudável” entre o Estado e o mercado. O segundo relatório acrescenta ao debate o facto de intervenções selectivas no mercado poderem melhorar o seu funcionamento e impulsionar o crescimento económico. O relatório de 1997 enfatiza a qualidade e não quantidade, ou seja, a eficácia e não a dimensão do Estado (Estêvão, 1999: 7–8).

Sobre esta evolução do pensamento neoliberal, Stiglitz resume de forma simples mas concludente, quando afirma que há intervenções do Estado que são desejáveis e que têm o condão de melhorar a eficiência do mercado. Pode-se, num certo sentido, entender muitas das actividades fundamentais do estado como respostas aos erros do mercado (2002, 117).

Na verdade, estes ventos de mudança, que são intensificados com a crise asiática, vêm recuperar o manancial teórico produzido pela escola de Friburgo, na Alemanha, nos anos 1940. Algumas das questões bastante discutidas por Eucken – seu precursor – estão intimamente ligadas ao problema da neutralidade e do modelo de análise. Traz a ideia de que enquanto a economia for uma ciência cujo objecto de estudo se centra no comportamento dos indivíduos face à raridade de bens e satisfação de necessidades, o economista estará sujeito a emissão de juízos de valor. No tocante ao método ou modelo de estudo em economia, em vez do individualismo metodológico, a escola de Friburgo é pelo individualismo pluralista.

Para Eucken, o individualismo metodológico é deficiente porque se preocupa apenas com grandezas supra-individuais, marginalizando sistematicamente uma parte substancial da realidade económica. Este autor propõe o individualismo pluralista a partir da assunção de que:

os indivíduos procuram, sempre e em toda a parte, nos seus planos económicos e, por conseguinte, na sua actuação atingir um determinado objectivo com a menor aplicação possível de valores. (...) O princípio de economia não tem nada a ver com os objectivos ou fins das acções humanas. Os fins dos indivíduos são muito diversos, podem por exemplo ser egoístas ou altruístas. (...) Os fins dos indivíduos são muito diversos e variáveis. Desta maneira é metodologicamente possível analisar as diferentes formas que a liberdade humana assume, e também as diversas formas de destruição da liberdade por parte do poder. (1998: XVIII-XXVI-XXVII).



BIBLIOGRAFIA

· SEN, Amartya (2003) Desenvolvimento Como Liberdade, Grádiva, Lisboa.
· SOROS, George (1999) Crise do Capitalismo Global , A Sociedade Aberta Ameaçada, Temas & Debates, Lisboa.
· STIGLITZ, Joseph (2002) Globalização, A Grande Desilusão, Terramar, Lisboa
· Vertical nº 1747, 27.01.2009, Maputo.
· ESTÊVÃO, João r. ( 1997) O Estado e o Desenvolvimento Económico: elementos para uma orientação de leitura, ISEG, Lisboa.
· EUCKEN, Walter (1998) Os Fundamentos da Economia Política, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa.
[1] Licenciado em Relações Internacionais e Diplomacia pelo Instituto Superior de Relações Internacionais. Docente de Economia Política na Universidade Pedagógica – Delegação de Gaza.
[2] Livre Mercado
[3] Abordagem do Estado Amigo do Mercado

LUFADA DE ...CIMENTO FRESCO



Depois de uma subida vertiginosa, o preço de cimento voltou a baixar nos últimos meses. Agora já se compra, pelo menos na cidade de Maputo, um saco a 240 mt. Longe, muito longe dos 280 mt em Janeiro/Fevereiro. Para alívio de muitas famílias e da grande economia . Vá lá saber-se das escusas razões que comandam tais fenómenos. Tanto mais que, no âmbito da guerra para travar a louca galopada do preço de cimento, o governo levantou a oneração sobre a entrada do cimento estrangeiro. De uma assentada, o preço caiu e parece estabilizado. E já se vê por aí cimento estrangeiro a preços abaixo do nacional...a rodos...!

quinta-feira, 19 de março de 2009

Serviço Público de Radiodifusão

Retomo uma antiga aposta: a de partilhar ideias e reflexões sobre a radiodifusão pública. Desta vez trago uma comunicação escrita por Christian Kapfensteiner, na altura consultor na Rádio Moçambique. Esta comunicação foi apresentada nas jornadas de rádio da RM-EP.



PAINEL: FINANCIAMENTO DO SERVIÇO PÚBLICO DE RADIODIFUSÃO

O PAPEL DE UMA ONG INTERNACIONAL:

O Caso do Instituto Austríaco para a Cooperação Norte-Sul e a Rádio Moçambique*

Sr. Christian Kapfensteiner

IANS, Áustria


O Instituto Austríaco para a Cooperação Norte Sul (IANS) é uma organização não-governamental Austríaca que foi fundada em 1991 por membros do partido social-democrático, do partido verde e do movimento dos sindicatos da Áustria com o alvo de sustentar as estruturas democráticas da sociedade civil em países subdesenvolvidos. Actualmente, o IANS tem 10 colaboradores na Áustria, em Nicarágua, Guatemala e Moçambique. A sua sede encontra-se em Viena, a capital Austríaca.


O programa do IANS consiste no enfoque forte em suporte para a participação política e acesso à informação de todos cidadãos. Graças à participação activa do cidadão no desenvolvimento do seu país e no seu local de residência, podem ser efectuadas mudanças positivas para a comunidade, bem como para o indivíduo na sua comunidade.


O IANS planifica e implementa os projectos junto com os parceiros nacionais para garantir que as necessidades dos grupos alvos são satisfatoriamente reflectidos e endereçados nos objectivos e nas actividades. Em termos gerais, os projectos do IANS são virados à criação de condições para a participação activa de todos cidadãos, particularmente dos grupos mais desfavorecidos, nos processos políticos, sociais e económicos no país.


A colaboração do IANS com a RM começou no ano 1992, altura em que o país entrou no seu caminho para a democracia multipartidária. Tomando em conta a história da RM (ou do Rádio Clube) em tempos coloniais e nos tempos da guerra civil e considerando as mudanças fundamentais que o país e a sua Rádio estavam a enfrentar, era de alta importância para o IANS prestar apoio à RM neste processo de transformação de empresa estatal para empresa pública. Também foi identificado pelo IANS a importância dos media independentes, particularmente da RM, na reconstrução do pais pós-guerra, na consolidação dos processos políticos e no sustento à transformação do sistema político.


Mas, a colaboração com a RM não parou por aí. O IANS reconheceu cedo a qualidade da rádio como meio de comunicação social sem competidor em Moçambique; facto recentemente mais uma vez provado nomeadamente pelos resultados do inquérito "Formação do Voto e Comportamento Eleitoral dos Moçambicanos em 2004" realizado pelo Instituto Eleitoral da África Austral.


Neste factor entram vários aspectos:

1) Graças à técnica e ao facto que a RM transmite em 20 línguas nacionais, ela consegue atingir mais de 80% dos Moçambicanos. Formam parte deste número a maioria dos Moçambicanos e particularmente as Moçambicanas sem conhecimento de Português e sem acesso a outro meio de comunicação. Uns 80% da população Moçambicana nunca teve acesso aos jornais e a televisão quando a RM encontra-se em termos de audiência na radiodifusão em posição hegemónica com 91%.

2) Os custos envolvidos em fazer educação cívica no ramo de programas de rádio são comparavelmente baixos.

3) Como Empresa Pública, a RM tem a responsabilidade de abordar assuntos que por vários motivos não entram na agenda de outros meios, por exemplo nas rádios comerciais.


Os primeiros projectos da RM com o IANS tratavam-se principalmente de educação cívica ao eleitorado, de cobertura de várias eleições e do desenvolvimento de municípios. Recentemente, o aspecto da formação profissional começou a entrar adicionalmente nos projectos. Apoiar a formação dos jornalistas da RM tem como consequência o melhoramento da qualidade do trabalho jornalístico. A difusão de informação de alta qualidade e actualidade ajuda fundamentalmente no fortalecimento dos processos democráticos.


O IANS considera que até agora os resultados da cooperação foram atingidos e os doadores principais (a Cooperação Austríaca para o Desenvolvimento e a União Europeia) manifestam-se contentes em relação ao impacto. Dificuldades e constrangimentos, bem como os sucessos consistem principalmente na dimensão da instituição Rádio Moçambique. A complexidade da hierarquia e do processo de tomada de decisões na sede junto com a extensão do país - as decisões são implementadas em todas províncias através de todos Emissores Provinciais - as deficiências infra-estruturais e os interesses particulares inerentes numa empresa pública de informação representam um constante desvio.


Neste contexto temos de reconhecer igualmente que a dimensão da RM no sentido de estar presente em todas províncias através dos Emissores Provinciais (incluindo o uso das línguas locais) e a potência dos emissores de cobrir quase 100% do território nacional representam no mesmo tempo as maiores vantagens competitivas da RM.


A avaliação do IANS da cooperação com a Rádio Moçambique é positiva. O IANS reconhece o papel que os media têm na informação dos cidadãos e especificamente o papel importante da rádio como único meio de informação que consegue atingir as massas em países com economias fracas. Mesmo com grandes progressos já alcançados no passado ainda identificam-se muitas carências e necessidades para reforçar e melhorar o serviço da RM à população de Moçambique. É neste sentido que o IANS planifica continuar a eficaz colaboração com a Rádio Moçambique.


*Depois de uma reestruturação, o Instituto Austríaco Para a Cooperação Norte-Sul viu o seu nome alterado. Agora chama-se GEZA. para obter mais informações sobre Geza consulte o website www.geza.at ( apenas em alemão) ou contacte friedarike.santner@geza.at.

segunda-feira, 16 de março de 2009

PAIS ESFERICO, AZUL E PASMOSO




Ha uns pares de anos, um velho e distinto amigo, de parodias e artes, o Jaime Santos, telefona a solicitar-me um texto de apresentação de um livro de um amigo que também há-de ser teu. O Stelio Inácio, Faço o texto e faço-me ao lançamento. Simpatizei-me com tudo: o desespero do Jaime; A expectativa do estreante Stelio.



Desde então tenho velado o texto, sempre com receio de vê-lo partir. E então que resolvo mandar um email ao Stelio. Ele manda-me as fotos. E eu aqui a publicar tudo isso. Boa fruição.


O meu País é esférico, azul e pasmoso

A ideia é apresentar a obra. O livro, neste caso. Muito obrigado pela deferência e parabéns ao autor.

O livro é uma colecção de 57 poemas. Todos sonetos. No geral, os textos são escritos dentro de um rigor notável. O género é cultivado em toda a sua plenitude. Até às últimas consequências. Como disse, o autor optou pelos sonetos. Na sua forma mais clássica, portanto, mais formalista. Se quisermos, podemos também questionar, porquê escolher sonetos? Que relação um jovem esgrime com um género tão cultivado? Porquê não atende ele ao apelo da inovação, ou porquê não nos oferece um texto, como diz Barthes, para fruição, e fica-se pelo prazer?

Bem, creio que mesmo assim a opção foi feliz. O autor mostrou que controla o género. Controla e domina a domina a técnica do soneto. Podemos notar isso na forma fácil e bela como o verbo flui. Como as rimas são tratadas, com respeito religioso. E até a métrica o Stelio afagou com muito desvelo. Também não traiu a tribo na temática. Afinou pelo amor. Um amor por realizar. Nos poemas, há sofrimento. Há dor. Há esperança. Como na sua forma original, aqui nos sonetos há muita paixão, muitos suspiros poéticos. E muita humanidade e fraternidade.

Quer dizer, e por tudo isso, posso afirmar que esta obra já não é só orgasmo incontido. É cópula consentida. Não é aquilo precoce. É uma cavalgada em modo de trote. É algo sentido e pensado. Elaborado com maturidade e segurança. É forma e conteúdo bem casados.

E notamos isso a partir do título: O meu país é esférico, azul e pasmoso. Stélio: quem te mandou escrever um título tão comprido assim? Tão exigente, inesperado e , se calhar, por isso mesmo, belo.

Este título é uma referência ao mundo-planeta, uma visão mais ampla do conceito de País. Aqui, País, deve ser visto como lugar afectivo, onde se nasce. E segundo os astronautas e os donos dos satélites,de facto este mundo é azul e esférico. E o pasmoso é uma inspiração.Alinha com o belo e harmonioso dos semas País, esférico e azul.

Olhemos agora para os poemas. Não precisaremos de apresentar um a um. É para isso que o livro está à venda. Que é para lerem-no com ao vossos próprias olhos e bocas.

Escolhi um poema representativo. O poema cujo título é o título do livro. Esse poema remete para um desejo e uma relação próxima com um mundo ideal, embora sentido, harmonioso. Um cenário quase bíblico. Aqui visível nas palavras “nobre vida/reino belo/”.
Fora o aspecto essencialmente físico do u universo, que é a relação entre os corpos celestes, aqui Terra e Sol, o autor remete-nos para uma segunda instância do seu âmbito de interesse: a Humanidade, olhada do seu lado mais bíblico e harmonioso- o parentesco numeroso. Aliás, abundante, pois os homens, do ponto de vista numérico, é algo inerte. Já o abundante tem mais a ver com a criação, com o que se desenvolve saudavelmente. Que tem, portanto, vida. E mais do que vida, o Homem é um ser fascinante. E, como se sabe, todo o seu humano fascinante é também fraterno. Talvez por isso mesmo.

Quero crer que a essência do discurso e da construção do texto, neste livro, está irremediavelmente amarrada a esta visão do homem: do fascínio e da fraternidade, acto de amar e ser amadao, de respeitar e ser respeitado. Concentrado, porém, na figura da mulher. Aliás, como um bom e paradigmático “escritor” de poemas de amor, romântico, Stélio vive apaixonado e fascinado por uma certa relação por acontecer. Todos os poemas flutuam entre duas histórias: uma de amor, um grito de paixão, desejo e angústia. E uma outra, um hino à Humanidade, à beleza e natureza.

E para terminar,como já disse, encontrarão neste livro 57 poemas. O mais recente é datado de 2006. E é o primeiro poema do livro. Depois, por ordem natural, ao contrário, surgem poemas de 2005, 2004 e 2003. Supreendentemente, o último poema é de 2002. O mais antigo texto aqui publicado.
Nota-se também que dos 57 poemas que há neste livro, em 54 o título dos textos é o seu último ou primeiro verso. Outro aspecto notável é o último poema. O tal de 2002. Chama-se soneto 1. Porque terá este título.

Bem, se me permitem, eu termino aqui. O livro está aí. Graficamente aguenta-se. A encadernação também. Leiam-no e se quiserem digam alguma coisa. Sucesso na tua carreira, Stélio.

Meu país é esférico, azul, pasmoso

Meu País é esférico, azul, pasmoso,
Junto ao sol no universo viajante;
Onde a nobre vida se faz reinante,
reino do belo e do maravilhoso

Meu parentesco é assaz numeroso,
Com todo ser vivo ai!tão abundante;
Todo o ser humano, ser fascinante,
Que é um sempre igual porém copioso

Minha bandeira foi por mim pintada
Com as cores que a raça humana toma,
Tendo mil signos pr´a felicidade.

Meu hino é uma canção alongada
Com frases de todo o humano idioma,
E que se traduz em “fraternidade”.


20.01.2005